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Acordo
com os respingos de chuva no rosto – tímidas gotículas de água atravessam o
telhado. Abro os olhos, aos poucos, e me encolho sob o cobertor. O som da chuva
no teto é reconfortante e me deixa preguiçosa (faz com que eu fique mais alguns
segundos na cama). A sensação é gostosa. Precisamos aproveitar o máximo da
época enquanto a temos, porque depois é apenas estiagem por um período, mais ou
menos, de seis meses. Bocejo e me espreguiço. Hora de levantar.
O chão de
piso queimado é frio sob meus pés. Um arrepio sobe pela minha espinha. Abro uma
das mãos. O visor da palma mostra que são seis horas da manhã. Não preciso de
despertador pra sempre acordar no mesmo horário. Saio do quarto e vou até a
sala. Digito a senha, num computador, que destrava as duas portas. 11090404.
Abro a de cima e recosto os cotovelos na de baixo. Olho a vista à minha frente.
Uma chuva mansa banha a terra, criando poças d’água no chão de pedras. A
caatinga é verdinha nesta época do ano. É janeiro. As algarobas estão altas e
pesadas pelos frutos amarelados – logo mais passaremos a recolhê-los. Na seca,
nem o tempo ruim consegue derrubá-las.
Castro
está na cadeira de balanço que fica no alpendre.
- E aí,
Castro? – falo da porta.
- Bom
dia, senhora. – ele vira o pescoço pra me olhar, mas a boca não faz nenhum
movimento. A voz é transmitida através de pequenas caixas de som, quase
imperceptíveis, na cabeça. Castro, você pode não acreditar, mas é uma iguana
feita de restos de metal, alumínio e aço. À noite, ele é meus olhos e meu
alarme caso algo fuja do normal.
- Alguma
coisa estranha? – abro a porta de baixo e vou até onde ele está. Pego-o nos
braços e me sento na cadeira. Ele escala meu tronco até o ombro, onde gosta de
ficar, e enrola a longa calda em volta do meu pescoço.
- Nada,
senhora. – ele leva a ponta da calda afiada até uma entrada USB na parte de
trás da minha nuca, na qual a conecta. As imagens da noite começam a rolar no
meu cérebro. Uma cabra aqui, um jumento ali. Seu Joca bêbado, reclamando da
vida, tropeça numa pedra. Eu sorrio com a filmagem. – Mas, senhora, dona
Dandara passou mais cedo e deixou um recado. – logo vejo mãos enluvadas tocarem
a lateral da cabeça de Castro pra deixar uma mensagem de vídeo gravada. É a
líder do sítio onde moramos.
- Celina,
espero não incomodar, mas, quando der, passe na fazenda pra conversarmos sobre
um assunto que precisa, digamos, de urgência. Que fique claro: se trata da
próxima missão. – ela sorri e desvia o olhar pra Castro. – Você é uma iguana
muito bonitinha, sabia?! – e provavelmente acariciou sua crista afiada.
Não posso
ignorar nenhum recado de Dandara. Ela é a nossa líder e foi quem idealizou o
sítio onde vivemos atualmente. Ele não tem mais do que vinte anos de história.
Moramos no alto de uma serra, rodeados pela vegetação adaptável ao calor. Não
me entenda mal. Já passamos por poucas e boas no decorrer dos anos. Mas, como
em qualquer história, sempre vivemos no sistema de segregação. Os mais ricos
estão acima dos pobres em qualquer lugar ou época. Por aqui não seria diferente.
Ainda me pergunto como conseguimos chegar a 2050 mesmo com tantas guerras.
Suspiro. Levanto da cadeira e deixo Castro ali, de guarda.
- Volto
já. – digo. Entro mais uma vez em casa. A sala é composta por duas cadeiras de
balanço, uma espreguiçadeira e muitos, muitos computadores de vigilância que
monitoram a região e as fronteiras vinte e quatro horas por dia. Dou uma rápida
olhada nos monitores e, a meu ver, não há nada de anormal.
Sigo rumo
ao banheiro. A logística é simples: há um tanque no canto, com água de chuva, e
um chuveiro de onde vem o abastecimento da caixa de 1000 litros. Quando temos
chuva, recolhemos a água que desce das bicas. Precisamos poupar. Tiro a
camisola que visto e apoio no tanque de concreto. Pego uma cuia e jogo água na
cabeça. É gelada e dou alguns pulos pra aquecer o corpo. Não demoro mais do que
cinco minutos. Não me dou o trabalho de me enxugar e saio do banheiro, partindo
mais uma vez pro quarto. Tudo é muito humilde, mas nada além do que o
necessário: uma cama, uma cômoda e um espelho na parede irregular de barro. A
janela que dá pro quintal está fechada. Pego qualquer roupa e visto. Penteio o
cabelo e me olho no espelho. Sempre gosto do que vejo. O cabelo negro escorre
em cachos pelas costas. A calça de couro de cintura alta é amarrada por um
cinto. Abotoo a blusa de retalhos e observo meus braços – até os ombros, eles
são de metal. Não me lembro em qual momento (eu prefiro assim) da minha vida perdi os verdadeiros, mas estes me deixam satisfeitas por serem bem úteis. Me aproximo
um pouco mais do espelho. Minha pele é bronzeada por causa do sol; sardas
pintam meu rosto. Os lábios cheios, protuberantes, me dão um ar de arrogância,
o que não combinam muito bem com os meus olhos castanhos que possuem certa
leveza.
Como está
frio, pego o gibão da cabeceira da cama e o visto. As duas cartucheiras vêm
logo em seguida. Cruzo-as sobre meu peito. Assim, pego minha espingarda Benelli
M4 semiautomática. Geralmente, ando com ela nas costas – uma correia de
couro a prende na diagonal do meu corpo. Hoje não me preocupo em tomar café,
porque sei o que me espera na casa de Dandara. Na sala, aciono a vigilância
automática. Qualquer pessoa que não faça parte da nossa zona e que se aproxime
da minha casa, vai levar bala. Fecho todas as portas e saio. Pego Castro e
deixo-o no meu ombro. A sola dos coturnos afunda assim que ponho os pés na
lama. Dona Palmira, minha vizinha de 70 anos, descasca o milho no alpendre de
casa. O marido, seu João, olha a quantidade de água recolhida no tambor.
- Oi, Celina,
minha filha! Bora tomar um café? – pergunta dona Palmira. Diariamente, ela
acorda às quatro horas da manhã pra começar as tarefas de casa e do sítio. Todo
mundo ajuda com alguma coisa porque precisamos manter o sistema de
abastecimento de comida e água vivo. Se quisermos sobreviver nas épocas
severas, é necessário contribuir. – Acabei de passar. Tem bolo de milho,
tapioca e cuscuz lá na cozinha. – ela me dá um sorriso sem dentes e eu me
aproximo. Agora já parou de chover.
-
Tentador, dona Palmira, mas tô com pressa. Pode ser mais tarde? – eu sorrio pra
ela. Todos os dias, por volta das três da tarde, dona Palmira aparece com uma
cestinha cheia de iguarias. Ontem foram pães de queijo.
Ela não
me responde. Apenas levanta e entra em casa, voltando rapidamente com um pedaço
de bolo enrolado num lencinho de chita florido. Ela abre o portão do alpendre e
vem até onde estou.
- Não é
bom trabalhar de bucho vazio, minha filha. – ela coloca o pedaço de bolo em
minhas mãos e me dá um beijo no rosto. – Saco vazio não para em pé. E se cuide,
viu?
- Essa
daí é teimosa, hein Celina? – seu João sorri pra mim. Ele é um senhor
simpático de 74 anos. Nesta manhã, usa uma bermuda jeans puída, uma camisa de
botões fechada até o umbigo, com o peito à mostra, e um boné, mesmo que não
haja sol. Ele recebe um beliscão da esposa e resmunga.
- Vai com
Deus e Nossa Senhora, minha filha. – ela afaga meu rosto e volta à tarefa dos
milhos.
Os
afazeres dos dias variam pra que todo mundo se adapte às muitas funções da
nossa comunidade. Sei arar o roçado pro plantio com a enxada, dirigir trator e,
claro, técnicas de caça, por exemplo. Mas, fora isso, meu posto primário é o de
guerreira.
Hoje o
dia está particularmente bonito. O céu está nublado e tem orvalho nas plantas.
O contraste do verde no ambiente deixa tudo mais alegre. Nesta comunidade
rural, moram cerca de 50 famílias – crianças, jovens, adultos e idosos. Alguns
nasceram aqui, outros são refugiados e mais alguns ajudaram na construção do
que passaria a ser o nosso lar. Por onde caminho, as pessoas acenam e dizem
“bom dia, Celina! Bom dia, Castro!”. Elas me chamam pra tomar o café da manhã e
muitas me param pra puxar um papo sobre o tempo que promete ser farto nos
próximos cinco meses. Alguns dos homens carregam peixeiras guardadas no cós das
bermudas; as mulheres possuem inúmeras formas de defesa e ataque – nunca duvide
da capacidade de uma agulha de crochê ou de uma caçarola. Quando chego à
fazenda de Dandara – após abrir cerca de cinco cancelas, pular uns dois
passadores, subir e descer ladeira – são sete da manhã. O pedaço de bolo se foi
há tempos. O local é vigiado por quase 10 homens e mulheres munidos de armas
diversificadas em cada ponto da fazenda, mas sei que há muito mais deles. Eu me
apresento na entrada, respondendo a um código de acesso que só nós poderíamos
saber.
A casa
central é grande e feita de barro e taipas, rodeada por alpendres. As inúmeras
redes estão dispostas aqui e acolá. Cadeiras de balanço se movimentam
lentamente por causa do vento.
Dandara
joga milho pras galinhas e conversa com elas. É uma mulher guerreira de 50
anos, de traços fortes. Um rosto marcado pelo tempo. A pele negra reluz. O
cabelo cortado num moicano grisalho, trançado nas laterais, ostenta
agressividade, rebeldia e poder. Pra mim, ela é a figura de uma mãe que eu não tive.
Sorri quando me vê e vem ao meu encontro, dando-me um longo abraço. Dandara tem
cheiro de café e fumo de mascar.
- Não
pensei que fosse chegar agora, menina. Você é agoniada. – ela joga mais alguns
grãos de milho no chão. – Mas já que tá aqui tão cedinho, bora entrar e tomar
um café. – assim, damos a volta na casa e entramos pela cozinha. A mesa é
grande, farta e parece que já foi parcialmente atacada por alguns dos meus
amigos. Todo mundo precisa estar bem alimentado antes dos afazeres. É a regra
número 1. Dandara puxa uma cadeira e senta. Eu faço o mesmo, deixando a
espingarda de lado. Castro se mantem aninhado no meu ombro. Ela me serve um
café quentinho e cheiroso, daqueles que são coados no pano e fervidos no fogão
à lenha. Pego uma tapioca, abro em duas partes e coloco uma fatia de queijo de
manteiga dentro. É um manjar dos deuses. – Celina, enquanto você come, vou te
passando as informações. – ela espera eu assentir. – O prefeito do município
mais próximo daqui não tem sido justo com os bairros pobres da cidade. Ele não
levou a sério a nossa última palavra. Tem gente morrendo de fome, mesmo com
essa chuva toda. Eu também não sei ainda quantas pessoas podemos trazer pra cá.
Pelo menos por enquanto. Faz mais de um mês que EU não checo nenhuma cidade
presencialmente. É descuido meu. – ela tira um cachimbo do bolso, risca um
fósforo e acende. O cheiro do tabaco é doce.
- Hora de
invadir. – digo de boca cheia.
Ela
assente.
- Quando?
– olho pros meus dedos de metal engordurados.
- Hoje.
A
baforada do cachimbo que chega ao meu rosto me deixa extasiada. Antes de uma
invasão, meu corpo treme pela adrenalina. O objetivo é entrar e sair das
cidades sem mortes ou baixas de equipe. Mas a força do meu gatilho é mais
rápida. Ela diz: destrua aqueles que te colocaram o cabresto.
Mate aqueles que estão no topo do coronelismo.
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NOTA
Ei, vem cá, deixa eu te contar uma curiosidade sobre o título da minha história. Você já ouviu falar do Quinteto Armorial? QUÊ? NÃO?! Pois bem, foi um grupo de música instrumental brasileiro formado no Recife de 1970. E, olha só, nasceu no Movimento Armorial, idealizado (nada mais nada menos) pelo escritor Ariano Suassuna. O objetivo sempre foi fazer música popular, de raízes nordestinas, com elementos eruditos. Você pode saber um pouco mais sobre o grupo clicando aqui.
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