quinta-feira, 5 de maio de 2022

ARMORIAL (Uma história de Celina)

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Acordo com os respingos de chuva no rosto – tímidas gotículas de água atravessam o telhado. Abro os olhos, aos poucos, e me encolho sob o cobertor. O som da chuva no teto é reconfortante e me deixa preguiçosa (faz com que eu fique mais alguns segundos na cama). A sensação é gostosa. Precisamos aproveitar o máximo da época enquanto a temos, porque depois é apenas estiagem por um período, mais ou menos, de seis meses. Bocejo e me espreguiço. Hora de levantar.

O chão de piso queimado é frio sob meus pés. Um arrepio sobe pela minha espinha. Abro uma das mãos. O visor da palma mostra que são seis horas da manhã. Não preciso de despertador pra sempre acordar no mesmo horário. Saio do quarto e vou até a sala. Digito a senha, num computador, que destrava as duas portas. 11090404. Abro a de cima e recosto os cotovelos na de baixo. Olho a vista à minha frente. Uma chuva mansa banha a terra, criando poças d’água no chão de pedras. A caatinga é verdinha nesta época do ano. É janeiro. As algarobas estão altas e pesadas pelos frutos amarelados – logo mais passaremos a recolhê-los. Na seca, nem o tempo ruim consegue derrubá-las.

Castro está na cadeira de balanço que fica no alpendre.

- E aí, Castro? – falo da porta.

- Bom dia, senhora. – ele vira o pescoço pra me olhar, mas a boca não faz nenhum movimento. A voz é transmitida através de pequenas caixas de som, quase imperceptíveis, na cabeça. Castro, você pode não acreditar, mas é uma iguana feita de restos de metal, alumínio e aço. À noite, ele é meus olhos e meu alarme caso algo fuja do normal.

- Alguma coisa estranha? – abro a porta de baixo e vou até onde ele está. Pego-o nos braços e me sento na cadeira. Ele escala meu tronco até o ombro, onde gosta de ficar, e enrola a longa calda em volta do meu pescoço.

- Nada, senhora. – ele leva a ponta da calda afiada até uma entrada USB na parte de trás da minha nuca, na qual a conecta. As imagens da noite começam a rolar no meu cérebro. Uma cabra aqui, um jumento ali. Seu Joca bêbado, reclamando da vida, tropeça numa pedra. Eu sorrio com a filmagem. – Mas, senhora, dona Dandara passou mais cedo e deixou um recado. – logo vejo mãos enluvadas tocarem a lateral da cabeça de Castro pra deixar uma mensagem de vídeo gravada. É a líder do sítio onde moramos.

- Celina, espero não incomodar, mas, quando der, passe na fazenda pra conversarmos sobre um assunto que precisa, digamos, de urgência. Que fique claro: se trata da próxima missão. – ela sorri e desvia o olhar pra Castro. – Você é uma iguana muito bonitinha, sabia?! – e provavelmente acariciou sua crista afiada.

Não posso ignorar nenhum recado de Dandara. Ela é a nossa líder e foi quem idealizou o sítio onde vivemos atualmente. Ele não tem mais do que vinte anos de história. Moramos no alto de uma serra, rodeados pela vegetação adaptável ao calor. Não me entenda mal. Já passamos por poucas e boas no decorrer dos anos. Mas, como em qualquer história, sempre vivemos no sistema de segregação. Os mais ricos estão acima dos pobres em qualquer lugar ou época. Por aqui não seria diferente. Ainda me pergunto como conseguimos chegar a 2050 mesmo com tantas guerras. Suspiro. Levanto da cadeira e deixo Castro ali, de guarda.

- Volto já. – digo. Entro mais uma vez em casa. A sala é composta por duas cadeiras de balanço, uma espreguiçadeira e muitos, muitos computadores de vigilância que monitoram a região e as fronteiras vinte e quatro horas por dia. Dou uma rápida olhada nos monitores e, a meu ver, não há nada de anormal.

Sigo rumo ao banheiro. A logística é simples: há um tanque no canto, com água de chuva, e um chuveiro de onde vem o abastecimento da caixa de 1000 litros. Quando temos chuva, recolhemos a água que desce das bicas. Precisamos poupar. Tiro a camisola que visto e apoio no tanque de concreto. Pego uma cuia e jogo água na cabeça. É gelada e dou alguns pulos pra aquecer o corpo. Não demoro mais do que cinco minutos. Não me dou o trabalho de me enxugar e saio do banheiro, partindo mais uma vez pro quarto. Tudo é muito humilde, mas nada além do que o necessário: uma cama, uma cômoda e um espelho na parede irregular de barro. A janela que dá pro quintal está fechada. Pego qualquer roupa e visto. Penteio o cabelo e me olho no espelho. Sempre gosto do que vejo. O cabelo negro escorre em cachos pelas costas. A calça de couro de cintura alta é amarrada por um cinto. Abotoo a blusa de retalhos e observo meus braços – até os ombros, eles são de metal. Não me lembro em qual momento (eu prefiro assim) da minha vida perdi os verdadeiros, mas estes me deixam satisfeitas por serem bem úteis. Me aproximo um pouco mais do espelho. Minha pele é bronzeada por causa do sol; sardas pintam meu rosto. Os lábios cheios, protuberantes, me dão um ar de arrogância, o que não combinam muito bem com os meus olhos castanhos que possuem certa leveza.

Como está frio, pego o gibão da cabeceira da cama e o visto. As duas cartucheiras vêm logo em seguida. Cruzo-as sobre meu peito. Assim, pego minha espingarda Benelli M4 semiautomática. Geralmente, ando com ela nas costas – uma correia de couro a prende na diagonal do meu corpo. Hoje não me preocupo em tomar café, porque sei o que me espera na casa de Dandara. Na sala, aciono a vigilância automática. Qualquer pessoa que não faça parte da nossa zona e que se aproxime da minha casa, vai levar bala. Fecho todas as portas e saio. Pego Castro e deixo-o no meu ombro. A sola dos coturnos afunda assim que ponho os pés na lama. Dona Palmira, minha vizinha de 70 anos, descasca o milho no alpendre de casa. O marido, seu João, olha a quantidade de água recolhida no tambor.

- Oi, Celina, minha filha! Bora tomar um café? – pergunta dona Palmira. Diariamente, ela acorda às quatro horas da manhã pra começar as tarefas de casa e do sítio. Todo mundo ajuda com alguma coisa porque precisamos manter o sistema de abastecimento de comida e água vivo. Se quisermos sobreviver nas épocas severas, é necessário contribuir. – Acabei de passar. Tem bolo de milho, tapioca e cuscuz lá na cozinha. – ela me dá um sorriso sem dentes e eu me aproximo. Agora já parou de chover.

- Tentador, dona Palmira, mas tô com pressa. Pode ser mais tarde? – eu sorrio pra ela. Todos os dias, por volta das três da tarde, dona Palmira aparece com uma cestinha cheia de iguarias. Ontem foram pães de queijo.

Ela não me responde. Apenas levanta e entra em casa, voltando rapidamente com um pedaço de bolo enrolado num lencinho de chita florido. Ela abre o portão do alpendre e vem até onde estou.

- Não é bom trabalhar de bucho vazio, minha filha. – ela coloca o pedaço de bolo em minhas mãos e me dá um beijo no rosto. – Saco vazio não para em pé. E se cuide, viu?

- Essa daí é teimosa, hein Celina? – seu João sorri pra mim. Ele é um senhor simpático de 74 anos. Nesta manhã, usa uma bermuda jeans puída, uma camisa de botões fechada até o umbigo, com o peito à mostra, e um boné, mesmo que não haja sol. Ele recebe um beliscão da esposa e resmunga.

- Vai com Deus e Nossa Senhora, minha filha. – ela afaga meu rosto e volta à tarefa dos milhos.

Os afazeres dos dias variam pra que todo mundo se adapte às muitas funções da nossa comunidade. Sei arar o roçado pro plantio com a enxada, dirigir trator e, claro, técnicas de caça, por exemplo. Mas, fora isso, meu posto primário é o de guerreira.

Hoje o dia está particularmente bonito. O céu está nublado e tem orvalho nas plantas. O contraste do verde no ambiente deixa tudo mais alegre. Nesta comunidade rural, moram cerca de 50 famílias – crianças, jovens, adultos e idosos. Alguns nasceram aqui, outros são refugiados e mais alguns ajudaram na construção do que passaria a ser o nosso lar. Por onde caminho, as pessoas acenam e dizem “bom dia, Celina! Bom dia, Castro!”. Elas me chamam pra tomar o café da manhã e muitas me param pra puxar um papo sobre o tempo que promete ser farto nos próximos cinco meses. Alguns dos homens carregam peixeiras guardadas no cós das bermudas; as mulheres possuem inúmeras formas de defesa e ataque – nunca duvide da capacidade de uma agulha de crochê ou de uma caçarola. Quando chego à fazenda de Dandara – após abrir cerca de cinco cancelas, pular uns dois passadores, subir e descer ladeira – são sete da manhã. O pedaço de bolo se foi há tempos. O local é vigiado por quase 10 homens e mulheres munidos de armas diversificadas em cada ponto da fazenda, mas sei que há muito mais deles. Eu me apresento na entrada, respondendo a um código de acesso que só nós poderíamos saber.

A casa central é grande e feita de barro e taipas, rodeada por alpendres. As inúmeras redes estão dispostas aqui e acolá. Cadeiras de balanço se movimentam lentamente por causa do vento.

Dandara joga milho pras galinhas e conversa com elas. É uma mulher guerreira de 50 anos, de traços fortes. Um rosto marcado pelo tempo. A pele negra reluz. O cabelo cortado num moicano grisalho, trançado nas laterais, ostenta agressividade, rebeldia e poder. Pra mim, ela é a figura de uma mãe que eu não tive. Sorri quando me vê e vem ao meu encontro, dando-me um longo abraço. Dandara tem cheiro de café e fumo de mascar.

- Não pensei que fosse chegar agora, menina. Você é agoniada. – ela joga mais alguns grãos de milho no chão. – Mas já que tá aqui tão cedinho, bora entrar e tomar um café. – assim, damos a volta na casa e entramos pela cozinha. A mesa é grande, farta e parece que já foi parcialmente atacada por alguns dos meus amigos. Todo mundo precisa estar bem alimentado antes dos afazeres. É a regra número 1. Dandara puxa uma cadeira e senta. Eu faço o mesmo, deixando a espingarda de lado. Castro se mantem aninhado no meu ombro. Ela me serve um café quentinho e cheiroso, daqueles que são coados no pano e fervidos no fogão à lenha. Pego uma tapioca, abro em duas partes e coloco uma fatia de queijo de manteiga dentro. É um manjar dos deuses. – Celina, enquanto você come, vou te passando as informações. – ela espera eu assentir. – O prefeito do município mais próximo daqui não tem sido justo com os bairros pobres da cidade. Ele não levou a sério a nossa última palavra. Tem gente morrendo de fome, mesmo com essa chuva toda. Eu também não sei ainda quantas pessoas podemos trazer pra cá. Pelo menos por enquanto. Faz mais de um mês que EU não checo nenhuma cidade presencialmente. É descuido meu. – ela tira um cachimbo do bolso, risca um fósforo e acende. O cheiro do tabaco é doce.

- Hora de invadir. – digo de boca cheia.

Ela assente.

- Quando? – olho pros meus dedos de metal engordurados.

- Hoje.

A baforada do cachimbo que chega ao meu rosto me deixa extasiada. Antes de uma invasão, meu corpo treme pela adrenalina. O objetivo é entrar e sair das cidades sem mortes ou baixas de equipe. Mas a força do meu gatilho é mais rápida. Ela diz: destrua aqueles que te colocaram o cabresto.

Mate aqueles que estão no topo do coronelismo.

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NOTA

       Ei, vem cá, deixa eu te contar uma curiosidade sobre o título da minha história. Você já ouviu falar do Quinteto Armorial? QUÊ? NÃO?! Pois bem, foi um grupo de música instrumental brasileiro formado no Recife de 1970. E, olha só, nasceu no Movimento Armorial, idealizado (nada mais nada menos) pelo escritor Ariano Suassuna. O objetivo sempre foi fazer música popular, de raízes nordestinas, com elementos eruditos. Você pode saber um pouco mais sobre o grupo clicando aqui.

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quarta-feira, 4 de maio de 2022

CORES NÉON

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       Os caras cheiram cocaína e as garotas engolem LSD – ou vice-versa. Numa dança frenética e desengonçada, encontro-me no meio de uma orgia festiva à procura de uma presa. A música absurdamente alta com arranjos sintéticos pulsa nos meus ouvidos sensíveis. Vez ou outra os corpos suados batem de encontro ao meu. A boate estaria lotada até o teto se fosse possível. Faço cara de nojo, mas me camuflo bem no meio dos esquisitões. O cigarro de cannabis orgânica na boca (que eu ainda me preocupo em comprar. Inclusive, caro pra caralho e muito raro) ameniza os espasmos que possuo nos músculos. É medicinal. Tenho 25, mas me restam apenas 06 anos de vida – segundo um médico meia-boca do mercado ilegal da saúde. A sociedade atual não permite que a classe financeira a qual estou inserida chegue a bons profissionais (o tempo só alavancou um problema que sempre foi recorrente, claro). Rá, eu poderia ter deixado toda esta merda de lado, mas trabalhar é o meu prazer. Ficar parada atrofiaria ainda mais os meus músculos danificados.

       Tenho Sarcoma de Partes Moles. A nomenclatura é engraçada e soa estranha. Esse tipo de câncer é desenvolvido nos tecidos como, por exemplo, músculos, gorduras, nervos... Enfim, pra resumir, a metástase já tomou boa parte do meu corpo moribundo. Ainda me espanta saber que possuo tanto tempo de vida, mas talvez eu morra antes do esperado – foi o que o médico disse, naquele olhar leitoso, após me escanear com uma máquina de procedência duvidosa. Sarcomas são malignos e, bem, uma vez que você os tem, não te restam muitas opções.

      Trago meu cigarrinho por uns bons segundos e sinto a fumaça entrar na corrente sanguínea. É prazeroso e relaxante. Ajeito a porra do sutiã de couro, alguns números a mais do que eu costumo usar, que cobre os meus seios minúsculos. É, merda, não adianta ser quem eu não sou mesmo que tudo não passe de um disfarce. Seria estranho chegar aqui vestida no meu uniforme de metal. Chamaria atenção desnecessária. Olho-me num dos espelhos do teto. Além de observar as pessoas roçarem os corpos uns nos outros, concentro-me na minha imagem. Cabelo rosa néon militar quase raspado. Um olho violeta e o outro preto. O rosto em formato de coração me deixa com certa feminilidade, mesmo que eu não ligue muito pra esse tipo de besteira. Morrerei em breve.

       Alguém passa a mão na minha bunda e, num reflexo, soco o cara mais próximo. O olho colorido nunca errou nenhum alvo. Ele cai sentado, mas não fico por muito tempo ali pra conferir qual será a próxima jogada. As pessoas não parecem ligar pro que acontece; elas simplesmente continuam dançando como se nada tivesse ocorrido.

     - Pris, tá por aí? – o comunicador no meu ouvido fala, mas é apenas minha parceira de emboscadas, a Eli. – Olha, cara, tu precisa ver o que tá rolando nesse pedaço da boate.

      - Me passe a localização. – digo em resposta. O local onde Eli se encontra chega segundos depois ao meu processador óptico. Ela é um pontinho vermelho em torno de outros pontinhos azuis. – Chego já. – e tento andar o mais rápido possível num espaço apertado. Sem grandes resultados, apelo pro meu jeito carinhoso e educado de sempre: empurro quem está à minha frente.

       Preciso percorrer uma longa extensão de mesas, corpos, garrafas no chão e gente me assediando até conseguir avistar Eli no outro lado da boate. Ela acena alegre. Os braços longos, com bijuterias, guardam artimanhas mais do que eu gostaria de saber. O corpo magro e alto está coberto por uma espécie de roupa de correntes, escondendo estrategicamente suas partes íntimas. A pele cor de café cintila com as luzes da boate. O cabelo preto, raspado nas laterais, chega à cintura esbelta. Eli é uma garota trans e uma matadora de Elite. Ela ceifa a vida de homens por encomenda. Aqueles que merecem ser mortos. Eu apenas a sigo quando estou entediada. Minha área de atuação diz respeito aos que estão no poder. Matar pra acabar com o sistema de politicagem. Sou uma matadora de numerologia 12 – represento o povo que está à margem das grandes comunidades. Profissionais dessa categoria levam dias pra assassinar alguém.

       - E aí, mana? – ela diz quando chego perto. – Tu tá um droga, garota. – Eli me olha, com cara de pena, e puxa a bituca do cigarro de maconha que começa a queimar meus lábios. Ela joga o que foi um baseado no chão e pisa nele, apagando o que resta. Ela ajeita meu sutiã e as correntes em volta do meu pescoço. É disso que vou sentir falta quando morrer. Eli é minha irmã de alma; cuida de mim quando deveria estar cuidando de si mesma. Afasto suas mãos, impaciente, fazendo-me de durona quando, na verdade, só queria deitar no chão em posição fetal e chorar. – Ok, tá bem. Sei que tu tá adorando tudo isso. – ela põe as mãos na cintura e me olha com aqueles olhos verdes debochados. – É o seguinte: encontrei um deles por aqui. – e, assim, começam a jorrar dados na minha cabeça. A fotografia de um cara de cabelos longos aparece no meu processador. Ele é um dos desgraçados que estamos procurando. O alvo da vez. – Esperei tu chegar pra compartilhar a felicidade de matar um estuprador. Que tal arrancarmos o pau dele antes...

   Estendo uma mão, silenciando-a. Eli sempre tem ideias mirabolantes que acabam num banho de sangue desnecessário. Mesmo que a divirta, minha fase de sanguinária se foi há algum tempo. Atualmente, cada minuto é limitado e eu preciso finalizar o serviço o mais rápido possível. Eli está prestes a falar mais alguma coisa, mas a boca se fecha quando põe os olhos em algo. Olho pra trás. É o cara. Uma notificação aparece em cima da cabeça dele, indicando-o como o nosso felizardo. Volto meu olhar pra ela. Assentimos juntas.

        - Faça as honras, senhorita. – dou espaço pra ela passar.

       Eli me faz uma reverência sarcástica. Ela joga o cabelo pra trás, elegante, e tira delicadamente uma minúscula lâmina, daquelas que são colocadas em navalhas, que estava escondida sob a língua. Ela passa a parte afiada no pulso esquerdo, abrindo um caminho. Ali é acionado um sistema no qual seus braços se transformam na arma em que deseja. Basta pensar. Para esta noite, escolhe dois facões. Típico. Teremos um batismo de sangue. Em 2080 é difícil alguém não possuir alguma parte robótica pra melhorar a resistência e eficiência do corpo. Você pode ser quem quiser. Eli desfila, assassina, e vou logo atrás. Sinto um espasmo na bochecha esquerda. Agora não, por favor. Mordo o músculo, apertando-o até sangrar. Isso anestesia o colapso por alguns segundos. Não preciso mais afastar as pessoas do caminho, pois a presença de Eli com seus braços mortíferos já o fazem. Quando ficamos a poucos centímetros do estuprador, Eli o cutuca com a ponta de um dos facões. Ele se vira, mas, veja, neste mundo, as pessoas também estão preparadas pra tudo. Percebo o que ele vai fazer com antecedência. Afasto Eli e ativo o campo de força das minhas mãos antes que uma bala atravesse a cabeça de minha amiga. A bala volta e ele se desvencilha. Ele coloca as pernas em ação. A caça sempre corre do seu predador, isto é fato. Eli revira os olhos e fala através deles. Uma frase que nem precisa ser dita: “por que esses idiotas sempre tentam fugir?”.

     Minhas pernas também estão prontas pra correr, mas o corpo trava. Sinto metade do meu sistema humano paralisar, o que não me impede de caminhar pela boate com 50% dos membros funcionando. Eli me olha preocupada e sei que cogita abandonar a missão – pelo menos por enquanto. Apoio o corpo num dos joelhos e retiro uma seringa de dentro do meu tríceps, do braço que não é mais humano. Nela, contém uma droga de adrenalina. Mais tarde, meu corpo pode sentir os efeitos negativos do líquido verde e viscoso. Com a mão trêmula, sem força, enfio a agulha entre o osso e o músculo da coxa em que não estou apoiada. Sinto a substância correr rápido por cada célula. As veias do meu corpo saltam e eu me levanto rápido. Começo a correr, afastando quem está por perto. Eli está ao meu lado. Os saltos de 20cm não a impedem. Um corredor de pessoas se abre. Logo avistamos o cara mais uma vez, tentando se esconder. Ele nos olha, amedrontado. Atira novamente. Mas sou ágil. Nos protejo com o campo de força de novo. Lido com matadores de Elite há anos e eles nunca me pegaram. Não vai ser um estuprador de merda que irá me derrubar. Estendo o braço e da palma da minha mão sai um cano de metal arredondado. O cara se assusta. As pessoas em volta se afastam – agora não mais tão entorpecidas. Afinal, ninguém quer morrer nesta noite. É sábado, dia de curtição. Ele se vira pra correr, mas, antes, acerto seu ombro esquerdo. O impacto faz com que cambaleie pra trás.

       Eli se aproxima e nos seus olhos verdes quase posso ver faíscas de ódio. Eli mata por justiça, vingança e amor.

      - Tu tem sorte, meu bem, por não me encontrar sozinha. – ela fala, a voz quase num sussurro, mas posso ouvi-la em meus pensamentos. – Tu seria empalado e, ainda assim, não seria o suficiente pra o que viria depois. – como um chicote, acerta o rosto do homem com a ponta do facão direito, abrindo um talho numa das bochechas.

     Alguém grita ao fundo em alto e bom som, apesar da música estrondosa. As pessoas começam a se afastar; outras ficam por ali, à espreita, curiosas. O homem começa a chorar, pedindo perdão, mas Eli gargalha, dá uns dois passos pra trás, gira, une os braços, e corta o cara em duas partes, da virilha à cabeça, antes mesmo que ele pisque. O corte é perfeito, preciso, sem curvas. Os dois pedaços grandes caem no chão quase em slow motion, espalhando entranhas e órgãos e pincelando de sangue os indivíduos mais próximos. Uma pessoa por perto vomita instantaneamente; algumas estão horrorizadas com a cena. Recolho a arma da mão no compartimento do meu braço. Estou indo falar com Eli quando os espasmos do corpo retornam, desta vez mais fortes. Não tenho controle. Caio. Entro em convulsão. Tudo gira. Os olhos rolam nas órbitas. A última coisa que vejo é o rosto de Eli gritando, mas a voz está tão distante...

        A morte tem um gosto amargo.

       Meu leito são os restos de outro. Vamos para o mesmo lugar.

       Para o inferno.

      Meus sistemas entram em falha. As luzes estão sendo desligadas. O que resta é um bip contínuo e sonoro no centro do meu cérebro.

      Então eu apago.

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NOTA

    Eu amo a estética cyberpunk e vocês vão ler por aqui muitas histórias ambientadas nessa vertente da ficção científica. Quando imagino um futuro dominado pela tecnologia, sempre me vem à cabeça a forma como os humanos podem querer um pouco mais além do que já é posto no mercado. A ciência corre. Vemos o fato ao longo dos anos (ainda estou receosa de comprar um robô aspirador? Com certeza!). Por que não um melhoramento genético? Por que não mixar partes do corpo à biônica? No texto acima é possível.

    Mas outro ponto em que penso quando falo do cyberpunk é a poluição visual, sonora, ambiental... Acredito que o mundo cresce e definha na mesma proporção.

    E, antes de finalizar, queria deixar em evidência a minha paixão por Eli. Ela foi inspirada na cantora Urias que, na minha opinião, tem total estética cyberpunk hahah. 

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terça-feira, 3 de maio de 2022

O Tempo e a Rosa

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      Todas as manhãs vou ao jardim botânico da cidade, sento-me num dos inúmeros bancos de metal que serpenteiam por entre as árvores e espero por ele pacientemente. Ele quase nunca aparece, mas todos os dias eu me arrisco a encontrá-lo. A primeira vez que o vi foi há quase seis anos. Eu era muito jovem naquela época e não tinha noção de como agir. Ele também era muito jovem, mas alguns anos mais velho do que eu. Lembro-me de estar neste mesmo jardim, colhendo flores, quando ele passou a cavalo vestido feito um camponês. Magro, mas muito alto, possuía cabelos ligeiramente loiros e cacheados; o rosto juvenil carregava uma expressão sonhadora como se estivesse em outro mundo.

      Desde então eu nunca o esqueci, por isso saio de casa todo dia, sempre no mesmo horário, com o intuito de vê-lo. É engraçado gostar tanto de uma pessoa sem nem ao menos ter trocado algumas palavras com ela – talvez a essência transmitida acabe nos tocando de alguma forma. Eu o vi pouquíssimas vezes depois daquele encontro casual e ele estava em constante mudança física. O menino camponês acabou virando o Primeiro Cavaleiro da Guarda do Rei. Vencedor de muitas batalhas, tornou-se um homem íntegro e sério (não é à toa que é um dos homens mais cobiçados do Reino, mas, apesar de fazer parte de uma matilha, não passa de um lobo solitário).

      Levanto-me para ir embora, porque perdi meu horário com tantos devaneios. Preciso ajudar minha mãe com as tarefas domésticas. Abaixo-me para recolher a cesta com vegetais... E é quando uma mão consegue ser mais rápida do que eu. Seria um ladrão? Eu me assusto e dou uns dois passos para trás.

      - Deixe-me ajudá-la com isto, milady.

     E que os raios me partam, mas ele está bem na minha frente! Alto, forte e com um leve sorriso no rosto. Ele não usa mais aquela cabeleira cacheada – agora é rente, mas contrasta com a barba cheia. Noto que os olhos são de um verde profundo, feito esmeralda, e eles me olham de forma bondosa. A armadura de prata se ajusta bem ao seu corpo grande – e eu me sinto muito pequena.

      - Fiquei sabendo que estava por aqui. – ele me entrega a cesta. – Resolvi passar para dar um olá.

      Eu fico surpresa, mas tento não demonstrar.

      - É mesmo? O nobre cavaleiro vem me observando?

      - Há algum tempo, milady. – ele sorri.

      Sinto as maçãs do meu rosto corarem.

      - Estou surpresa.

     - Por quê? – ele arqueia as sobrancelhas despreocupadamente. – Não pense que eu não percebi sua presença neste jardim todas as vezes em que passei por aqui. Senhorita, eu seria louco de não perceber beleza tão peculiar no meio de tantas flores.

      Estou tão petrificada e surpresa que preciso abrir minha boca muitas vezes para encontrar as palavras que me foram tiradas tão momentaneamente. Eu olho para baixo, pois não consigo esconder a vergonha aparente, porém ouso falar mais uma vez.

      - Então por que o senhor nunca falou comigo?

      - Porque, senhorita, eu não tive coragem, até então, de enfrentar o que eu chamo de destino. – ele leva uma das mãos ao meu queixo e levanta meu rosto. – Tu tens sido a pegada no meu caminho; a pegada que tentei não seguir, mas cá estou eu. – com a mão livre, ele passa os dedos por entre os fios dos meus longos cabelos negros. Ele pega uma mecha e a cheira, fechando os olhos. – Eu sempre tive a certeza de que a senhorita estaria aqui, desde a primeira vez que a vi, há alguns anos, por isso decidi cortar caminho todas as vezes em que tive oportunidade de retornar ao vilarejo.

      Meu cérebro está dentro de um furacão – ele gira em torno das palavras que estão sendo ditas, porque eu não consigo acreditar que seja realidade. Ele. Eu. É praticamente impossível.

      - Mas, milady, quero que saiba de uma coisa. – ele segura meu rosto entre as mãos. – Eu vou partir e ficarei longe por um tempo. O que tens a me dizer?

      Eu o olho fixamente e a única coisa que desejo é provar dos seus lábios. Fecho meus olhos e aninho meu rosto nas mãos dele.

      - Que eu vou esperá-lo. De novo e de novo.

      Ele me abraça e é como mergulhar em águas quentes – quero me afogar nelas e nunca mais sair de lá. Solto a cesta de vegetais e envolvo sua cintura com os meus braços. Se eu pudesse parar o tempo, o momento seria agora. Para sempre. Contudo, ele me afasta delicadamente.

      - Preciso partir.

      - O senhor não me disse seu nome.

     - Não. – ele segura minhas mãos. – Se eu demorar, é a primeira coisa que tens de esquecer, então é melhor não saber como eu me chamo.

      - Eu ainda estarei aqui todas as manhãs.

      Ele sorri mais uma vez e beija minhas mãos.

      - Milady, chegou minha hora. Lembre-se: se estou aqui, é porque sempre soube que tu estarias escrita no meu destino. – ele beija minha testa. – Até breve. – soltando-me, ele vira as costas e parte, desaparecendo segundos depois por entre as árvores.

      Sem um adeus, não me disse quando voltaria. Partiu, mas retornará? Ele não perguntou meu nome talvez pelo mesmo critério que não me disse o seu. Piso numa flor murcha sem querer, mas percebo que, ao lado, há muitas outras novas. Penso no tempo - que não fere, mas ajuda; que não mata, mas nós é quem morremos. O tempo segue apenas o próprio fluxo e nós precisamos segui-lo até que nossas determinadas horas cheguem.

      Esperar não é problema contanto que eu continue a caminhar.

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NOTA

      Alguns tipos de homens são totalmente irritantes (nuances e dissimulação que notei ao longo do tempo). O personagem masculino da história acima é um deles: não quer se prender a ninguém, mas também não quer abrir mão da garota. Claro, é sempre mais fácil pro homem dizer que não está preparado pra um relacionamento... Mas sugestiona à  garota, mesmo que entrelinhas, que ela não fique com outro. Estou revirando meus olhos ao escrever sobre, porque, meu caro leitor ou leitora, na sociedade em que vivemos homens podem ficar com quem bem entenderem e danem-se os sentimentos alheios. Mulheres? Julgadas se ousarem fazer o mesmo.

        A personagem feminina da história é uma garota de mais ou menos 20 anos que nunca passou por relacionamentos amorosos. Tudo bem ela ter se apaixonado à primeira vista, mas colocou muitas expectativas numa pessoa que sequer conhece – por causa da beleza, da fama de bom moço e da boa autoestima que o rapaz mostra ter.

           O que quero dizer é que se eu pudesse dar um conselho para a garota, seria o seguinte: minha filha, pega o beco! Corre! É cilada (e experimente conhecer alguém próximo)! O texto foi escrito em 2015, ou seja, eu tinha outra perspectiva sobre romances do tipo.

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SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...