segunda-feira, 11 de novembro de 2024

COMO MATEI MEU CHEFE

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        Não se brinca com uma pessoa que anda por aí com armas afiadas, principalmente se ela sabe como manejar minuciosamente esses tipos de objeto – afinal de contas, estamos falando dos meus instrumentos de trabalho.

Meu nome é Zaya. Apenas. O ano é 2060 e eu matei meu chefe. É, você não leu errado. Eu realmente matei e as vozes da minha cabeça estão rindo de satisfação (e ao mesmo tempo desespero), porque deve ser algo que muita gente quer fazer, mas não tem coragem.

            Nasci em 2030 e o planeta já era complicado o suficiente, de acordo com a minha mãe. A tecnologia despontava como uma promessa pra muitos, enquanto outros se afogavam no mar da sociedade capitalista. Os meus primeiros dez anos foram complicados – o mundo ficou ainda mais pesado pra quem não tinha dinheiro. Era o caso da minha pequena família. Eu não culpo a minha mãe. Ela precisou me vender a um mercenário (este não tinha o trabalho à vista naquele tempo) em troca de grana.

            Aos onze segurei a minha primeira lâmina: uma kukri. É o tipo de arma que a gente começa a usar quando quer se aprofundar nesse meio, ao menos no meu caso. A faca é curvada quase da base à ponta, projetada pra cortar e apunhalar de uma forma que torture a vítima. A karambit era a minha segunda parceira e quase uma irmã perdida da primeira: lâmina curva com um anel na extremidade do cabo.

Mas, de fato, comecei o meu trabalho aos quinze e, na época, a maioria das pessoas não tinha mais nenhum vínculo trabalhista que pudessem agarrar. Eu precisava de um ponto de apoio pra sobreviver. Eu não tinha saída. A cada ano trabalhei firmemente com um único propósito: sair desta vida. É um paradoxo, eu sei.

Observo o horizonte que acorda à minha frente e trago o cigarro. Me engasgo com a fumaça acinzentada. Não costumo fumar, mas achei que cairia bem. Sempre me imaginei neste dia. Solto o cigarro que quase não foi consumido e apago o resto da chama laranja com a ponta do All Star surrado.

            Inspiro, sentindo o cheiro da grama e do orvalho da manhã que apenas começou. Fecho os olhos e a memória volta à noite passada.

                                                                       *

            22h.

            - Zaya! – a voz é inconfudível. Saori corre até onde estou e me abraça pela cintura, enterrando o rosto no meu ombro. Ela tem dezoito anos. Eu, trinta. – Por favor, não faça isso.

            Saori também tinha apenas dez anos quando chegou. Os olhos puxados, sem as linhas das pálpebras, são de um verde quase cristalino. O cabelo curto e preto, na altura da nuca, está embaraçado. Afasto-a de mim e arrumo sua franja.

            - Eu preciso. Por nós. – coloco as mãos sobre os ombros musculosos da menina. – A gente se vê por aí, Saori.

            Ela faz uma careta como se fosse chorar, mas engole as lágrimas e muda de expressão, determinada. Essa conversa foi repetida inúmeras vezes, mas hoje é diferente. Eu parto em busca do que quero quando decido.

            - Então trate de não deixar nada pra trás. – ela aperta a minha mão, saca a pistola Taurus e corre.

            Talvez ela morra.

            Talvez eu morra.

            Espero que não.

            Eu suspiro e começo a caminhar na direção oposta a que ela se foi. O corredor é extenso, de concreto acinzentado. Algumas portas dão para lugares inimagináveis que você não gostaria de saber. O local não tem saída no caminho que percorro, porque a porta da ponta é a sala onde meu Chefe se encontra. Ando mais alguns metros e bato na madeira amarronzada com os três toques característicos do meu acesso. Do outro lado escuto a autorização.

            Entro e fecho a porta. Por incrível que pareça, o ambiente é bem iluminado com sofás confortáveis de couro em forma de L e estantes que contêm inúmeras bebidas. No centro da sala, ele está sentado à mesa. O Chefe levanta o olhar sob os óculos de grau de armação fina e dourada e continua a escrever seja lá o que for.

            - A que devo a honra, Zaya? – a voz é grave, porém calma.

            - Vim te matar. – eu digo, sem hesitar.

            Ele ri. Aquele riso debochado de incredulidade no fundo da garganta.

            - Ora, achei que este dia não chegaria tão cedo. Me enganei. – ele descansa a caneta sobre a mesa e tira os óculos. Passa as mãos nos cabelos oleosos e ondulados, sereno. O nariz é curvilíneo com ar de altivez. A pele morena tem rugas e manchas por causa da idade avançada. Setenta anos nas costas, mas ainda mantém o corpo saudável e esguio. Ele levanta da cadeira. Os olhos, antes castanhos, parecem conter uma névoa. – Engraçado, menina, como nos enganamos com as pessoas. Eu te acolhi, e é assim que você me retribui? – ele estende as mãos, mas o sorriso continua a desenhar os lábios finos.

            - Você mesmo me ensinou a não ter misericórdia. Por que eu teria neste momento? – eu falo de menos e prezo pela prática. Não espero que responda e saco duas karambits dos bolsos da jaqueta. Corro até onde ele está e pulo na mesa.

            Quando penso em cortar seu pescoço, ele some. Claro que sim! O Chefe sempre esperou por isso: que o matassem. Olho às minhas costas e ele está lá. O olhar nebuloso está incediado pelo prazer da adrenalina. Ele agarra a gola da minha jaqueta e me puxa pro chão. Minha coluna vai de encontro ao mármore sem piedade e eu fico sem fôlego. Tudo acontece muito rápido quando ele tenta afundar meu tórax com a perna direita, mas consigo rolar pro lado bem na hora. O Chefe não precisa usar armas pra matar, porque ele sabe infinitas formas apenas com o corpo.

            Consigo me colocar de joelhos, zonza. Merda. Vinte anos fazendo a mesma coisa e estou falhando. Falhando... Falhando... Ele segura meu cabelo curto e puxa minha cabeça pra trás. O hálito no meu ouvido cheira a uísque.

            - Tsc, esperava mais de você, Zaya. Tão prestativa nas tarefas... Tão compenetrada e sempre dando o melhor no trabalho. O que mudou, hein? – ele passa a mão direita pelo meu pescoço, numa carícia, mas eu só sinto repulsa. – Posso esquecer que isso aconteceu e te propor algo melhor, hm?

            Reúno o máximo de força que consigo e jogo meus cotovelos pra trás, atingindo-o no abdômen. Ele cai sentado e tosse alto. É tudo ou nada. Ponho-me de pé e chuto sua mandíbula com força. Ouço o som de algo se rompendo e tenho certeza de que foram os ossos de seu rosto. Ele tem setenta anos. Eu tenho trinta. Ele é um idoso. Ele é um homem. Eu sou uma vítima. Eu era uma criança. Tornei-me uma assassina.

            Quando o olho mais uma vez, o queixo está num ângulo estranho, torto. Ele se contorce de dor. Piso com força no seu tórax e sinto algumas costelas se quebrarem sob meu pé esquerdo. O Chefe grita. A sala tem isolamento acústico – me dá vontade de rir só de pensar. Aproveito e quebro os seus braços com mais pisadas. Acredito que não há chances de fugir.

            Sento-me sobre seu corpo e observo a agonia transbordar de um ser que já não é mais tão capaz de cometer atrocidades. Ele não consegue formular frases por causa da mandíbula quebrada, mas tenta, em vão, me segurar com braços inúteis.

            - Você acha mesmo que eu, cria do Chefe, seria tão fraca assim? Você me ensinou bem. Bem até demais. – saco dois canivetes butterfly da parte de trás da minha calça. As outras facas caíram longe quando ele me derrubou no chão.

            Ele arregala os olhos porque sabe o que vem por aí. Desço os canivetes em seus globos oculares com o máximo de rapidez que eu consigo. O sangue esguicha nas minhas mãos e ele solta um urro animalesco. Ele se debate, tentando levar as mãos ao rosto, mas como? Eu poderia deixá-lo viver cego e com braços que jamais serão curados, mas seria misericordioso demais. Puxo os canivetes e estou pronta pro golpe final.

            - Vai pro inferno. – eu digo e apunhalo as jugulares de seu pescoço sem titubear por um segundo.

            O sangue jorra em abundância e ele se afoga no próprio mar vermelho, em convulsão, até o corpo parar de se debater e ficar estático. Eu me levanto, olho o corpo do homem que um dia foi o meu Chefe. Cuspo. Nenhuma lágrima escorre de mim.

Só me resta efetuar o plano de sair desta sala.

                                                                       *

            Abro os olhos e observo os hematomas nas minhas mãos – resquícios de como consegui concluir minha tarefa. Saori ficou pra trás. Não consegui encontrá-la apesar da procura. Talvez ela tenha fugido.

            Respiro um novo ar, mas sei que não estou completamente livre por causa do que deixei. Pego o capacete preto do retrovisor da moto e subo na minha Yamaha YZF-R3 bordô. Olho o horizonte mais uma vez e rio. Gargalho. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, não sei se por causa da risada ou pelo que estou renunciando. Mas quem pode me dizer? Coloco o capacete e fecho a trava. Dou partida na moto e o ronco do motor me traz à realidade de o que fica no passado, permanece no passado.

            O futuro é incerto, mas busco pela plenitude do agora.

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NOTA

        Eu gostaria de te contar, meu caro leitor, que foi muito difícil chegar até aqui sem inseguranças, quedas e surtos, mas eu consegui. Eu não escrevia algo meu (de verdade) há pouco mais de um ano. Tive um grande bloqueio criativo; algo se partiu dentro da minha mente, porém tenho juntado os caquinhos aos poucos. Cheguei a achar que não contaria histórias por muito tempo - terapia e meses de reflexão foram necessários. Quem sabe um dia eu te conte sobre, quando as cicatrizes estiverem fechadas. O caminho e o processo são longos, mas um dia a gente chega lá.

        A história acima é nova. Estou muito orgulhosa de mim.

           

SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...