Escute enquanto lê :)
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Não
se brinca com uma pessoa que anda por aí com armas afiadas, principalmente se
ela sabe como manejar minuciosamente esses tipos de objeto – afinal de contas,
estamos falando dos meus instrumentos de trabalho.
Meu nome é Zaya. Apenas. O ano é 2060 e
eu matei meu chefe. É, você não leu errado. Eu realmente matei e as vozes da
minha cabeça estão rindo de satisfação (e ao mesmo tempo desespero), porque
deve ser algo que muita gente quer fazer, mas não tem coragem.
Nasci em 2030 e o planeta já era
complicado o suficiente, de acordo com a minha mãe. A tecnologia despontava
como uma promessa pra muitos, enquanto outros se afogavam no mar da sociedade capitalista.
Os meus primeiros dez anos foram complicados – o mundo ficou ainda mais pesado
pra quem não tinha dinheiro. Era o caso da minha pequena família. Eu não culpo
a minha mãe. Ela precisou me vender a um mercenário (este não tinha o trabalho
à vista naquele tempo) em troca de grana.
Aos onze segurei a minha primeira
lâmina: uma kukri. É o tipo de arma que a gente começa a usar quando quer se
aprofundar nesse meio, ao menos no meu caso. A faca é curvada quase da base à
ponta, projetada pra cortar e apunhalar de uma forma que torture a vítima. A
karambit era a minha segunda parceira e quase uma irmã perdida da primeira:
lâmina curva com um anel na extremidade do cabo.
Mas, de fato, comecei o meu trabalho aos
quinze e, na época, a maioria das pessoas não tinha mais nenhum vínculo
trabalhista que pudessem agarrar. Eu precisava de um ponto de apoio pra
sobreviver. Eu não tinha saída. A cada ano trabalhei firmemente com um único
propósito: sair desta vida. É um paradoxo, eu sei.
Observo o horizonte que acorda à minha
frente e trago o cigarro. Me engasgo com a fumaça acinzentada. Não costumo
fumar, mas achei que cairia bem. Sempre me imaginei neste dia. Solto o cigarro
que quase não foi consumido e apago o resto da chama laranja com a ponta do All
Star surrado.
Inspiro, sentindo o cheiro da grama
e do orvalho da manhã que apenas começou. Fecho os olhos e a memória volta à
noite passada.
*
22h.
- Zaya! – a voz é inconfudível.
Saori corre até onde estou e me abraça pela cintura, enterrando o rosto no meu
ombro. Ela tem dezoito anos. Eu, trinta. – Por favor, não faça isso.
Saori também tinha apenas dez anos
quando chegou. Os olhos puxados, sem as linhas das pálpebras, são de um verde
quase cristalino. O cabelo curto e preto, na altura da nuca, está embaraçado. Afasto-a
de mim e arrumo sua franja.
- Eu preciso. Por nós. – coloco as mãos
sobre os ombros musculosos da menina. – A gente se vê por aí, Saori.
Ela faz uma careta como se fosse
chorar, mas engole as lágrimas e muda de expressão, determinada. Essa conversa
foi repetida inúmeras vezes, mas hoje é diferente. Eu parto em busca do que
quero quando decido.
-
Então trate de não deixar nada pra trás. – ela aperta a minha mão, saca a pistola Taurus e corre.
Talvez ela morra.
Talvez eu morra.
Espero que não.
Eu suspiro e começo a caminhar na
direção oposta a que ela se foi. O corredor é extenso, de concreto acinzentado.
Algumas portas dão para lugares inimagináveis que você não gostaria de saber. O
local não tem saída no caminho que percorro, porque a porta da ponta é a sala
onde meu Chefe se encontra. Ando mais alguns metros e bato na madeira
amarronzada com os três toques característicos do meu acesso. Do outro lado
escuto a autorização.
Entro e fecho a porta. Por incrível
que pareça, o ambiente é bem iluminado com sofás confortáveis de couro em forma
de L e estantes que contêm inúmeras bebidas. No centro da sala, ele está
sentado à mesa. O Chefe levanta o olhar sob os óculos de grau de armação fina e
dourada e continua a escrever seja lá o que for.
- A que devo a honra, Zaya? – a voz
é grave, porém calma.
- Vim te matar. – eu digo, sem
hesitar.
Ele ri. Aquele riso debochado de
incredulidade no fundo da garganta.
- Ora, achei que este dia não chegaria
tão cedo. Me enganei. – ele descansa a caneta sobre a mesa e tira os óculos.
Passa as mãos nos cabelos oleosos e ondulados, sereno. O nariz é curvilíneo com
ar de altivez. A pele morena tem rugas e manchas por causa da idade avançada.
Setenta anos nas costas, mas ainda mantém o corpo saudável e esguio. Ele
levanta da cadeira. Os olhos, antes castanhos, parecem conter uma névoa. –
Engraçado, menina, como nos enganamos com as pessoas. Eu te acolhi, e é assim
que você me retribui? – ele estende as mãos, mas o sorriso continua a desenhar
os lábios finos.
- Você mesmo me ensinou a não ter
misericórdia. Por que eu teria neste momento? – eu falo de menos e prezo pela prática.
Não espero que responda e saco duas karambits dos bolsos da jaqueta. Corro até
onde ele está e pulo na mesa.
Quando penso em cortar seu pescoço,
ele some. Claro que sim! O Chefe sempre esperou por isso: que o matassem. Olho
às minhas costas e ele está lá. O olhar nebuloso está incediado pelo prazer da
adrenalina. Ele agarra a gola da minha jaqueta e me puxa pro chão. Minha coluna
vai de encontro ao mármore sem piedade e eu fico sem fôlego. Tudo acontece
muito rápido quando ele tenta afundar meu tórax com a perna direita, mas
consigo rolar pro lado bem na hora. O Chefe não precisa usar armas pra matar,
porque ele sabe infinitas formas apenas com o corpo.
Consigo me colocar de joelhos, zonza.
Merda. Vinte anos fazendo a mesma coisa e estou falhando. Falhando...
Falhando... Ele segura meu cabelo curto e puxa minha cabeça pra trás. O hálito
no meu ouvido cheira a uísque.
- Tsc, esperava mais de você, Zaya.
Tão prestativa nas tarefas... Tão compenetrada e sempre dando o melhor no
trabalho. O que mudou, hein? – ele passa a mão direita pelo meu pescoço, numa
carícia, mas eu só sinto repulsa. – Posso esquecer que isso aconteceu e te
propor algo melhor, hm?
Reúno o máximo de força que consigo
e jogo meus cotovelos pra trás, atingindo-o no abdômen. Ele cai sentado e tosse
alto. É tudo ou nada. Ponho-me de pé e chuto sua mandíbula com força. Ouço o
som de algo se rompendo e tenho certeza de que foram os ossos de seu rosto. Ele
tem setenta anos. Eu tenho trinta. Ele é um idoso. Ele é um homem. Eu sou uma
vítima. Eu era uma criança. Tornei-me uma assassina.
Quando o olho mais uma vez, o queixo
está num ângulo estranho, torto. Ele se contorce de dor. Piso com força no seu
tórax e sinto algumas costelas se quebrarem sob meu pé esquerdo. O Chefe grita.
A sala tem isolamento acústico – me dá vontade de rir só de pensar. Aproveito e
quebro os seus braços com mais pisadas. Acredito que não há chances de fugir.
Sento-me sobre seu corpo e observo a
agonia transbordar de um ser que já não é mais tão capaz de cometer
atrocidades. Ele não consegue formular frases por causa da mandíbula quebrada,
mas tenta, em vão, me segurar com braços inúteis.
- Você acha mesmo que eu, cria do
Chefe, seria tão fraca assim? Você me ensinou bem. Bem até demais. – saco dois
canivetes butterfly da parte de trás da minha calça. As outras facas caíram
longe quando ele me derrubou no chão.
Ele arregala os olhos porque sabe o
que vem por aí. Desço os canivetes em seus globos oculares com o máximo de
rapidez que eu consigo. O sangue esguicha nas minhas mãos e ele solta um urro
animalesco. Ele se debate, tentando levar as mãos ao rosto, mas como? Eu
poderia deixá-lo viver cego e com braços que jamais serão curados, mas seria
misericordioso demais. Puxo os canivetes e estou pronta pro golpe final.
- Vai pro inferno. – eu digo e
apunhalo as jugulares de seu pescoço sem titubear por um segundo.
O sangue jorra em abundância e ele
se afoga no próprio mar vermelho, em convulsão, até o corpo parar de se debater
e ficar estático. Eu me levanto, olho o corpo do homem que um dia foi o meu
Chefe. Cuspo. Nenhuma lágrima escorre de mim.
Só me resta efetuar o plano de sair
desta sala.
*
Abro os olhos e observo os hematomas
nas minhas mãos – resquícios de como consegui concluir minha tarefa. Saori
ficou pra trás. Não consegui encontrá-la apesar da procura. Talvez ela tenha
fugido.
Respiro um novo ar, mas sei que não
estou completamente livre por causa do que deixei. Pego o capacete preto do
retrovisor da moto e subo na minha Yamaha YZF-R3 bordô. Olho o horizonte mais
uma vez e rio. Gargalho. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, não sei se por causa
da risada ou pelo que estou renunciando. Mas quem pode me dizer? Coloco o capacete
e fecho a trava. Dou partida na moto e o ronco do motor me traz à realidade de
o que fica no passado, permanece no passado.
O futuro é incerto, mas busco pela
plenitude do agora.
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NOTA
Eu gostaria de te contar, meu caro leitor, que foi muito difícil chegar até aqui sem inseguranças, quedas e surtos, mas eu consegui. Eu não escrevia algo meu (de verdade) há pouco mais de um ano. Tive um grande bloqueio criativo; algo se partiu dentro da minha mente, porém tenho juntado os caquinhos aos poucos. Cheguei a achar que não contaria histórias por muito tempo - terapia e meses de reflexão foram necessários. Quem sabe um dia eu te conte sobre, quando as cicatrizes estiverem fechadas. O caminho e o processo são longos, mas um dia a gente chega lá.
A história acima é nova. Estou muito orgulhosa de mim.