terça-feira, 21 de janeiro de 2025

SETE EXÉRCITOS

           - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bolsos da minha jaqueta e do jeans à procura de um. Não obtive resultados satisfatórios, o que me deixou estressado. – Diabos, onde estão meus cigarros?! – grunhi e passei as mãos de forma frustrada no meu cabelo, emaranhando-o. – Se vou lutar contra eles, preciso fumar.

           Levantei-me do sofá puído da sala e caminhei lentamente – minha perna esquerda, ferida, era mais um fardo a ser suportado, já que não passava de uma consequência da minha última caçada – na direção do banheiro e olhei-me no espelho trincado: eu estava um trapo. Até Jesus, Maria e José sabem que já tive dias melhores. Ao observar meu rosto de perto, percebi que minhas olheiras eram absurdamente profundas, enquanto meus olhos verdes se pareciam com um rio coberto por lodo. A barba por fazer contrastava em minha pele branca e meus cabelos negros cacheados (sempre desalinhados) me deixavam com um ar de psicopata. Então aqueles velhos pensamentos aleatórios me assaltaram: querendo ou não, eu era o mocinho dessa porra toda que vinha ocorrendo nos últimos anos. Porém, como é de praxe, o mocinho sempre se fode, mesmo que aconteça muito tarde ou muito cedo – no meu caso, estou fodido desde sempre.

           Cansado de tanto me martirizar, liguei a torneira da pia, juntei as mãos em concha e aparei a água que fluía vagarosa. Inclinei-me e lavei meu rosto no intuito de amenizar a vontade louca de fumar e a ressaca constante (resultado de muitas doses de vodca). Olhei-me mais uma vez no espelho e pensei “de novo não”, porque eu sorria – apesar de não ser eu de fato. O cabelo arrumado e nenhum vestígio de barba deixavam aquele cara com a aparência de mocinho que EU deveria ter. Ironicamente, o que me agradava era que ele não passava de um mero reflexo do meu eu – alguém que eu queria esconder (porque, no fundo, todos nós queremos esconder quem realmente somos, seja por medo ou vergonha).

           - Mais um dia cansativo, Bob? – perguntou ele (ou eu, que seja) com uma pontada de cinismo na voz que me deixou ligeiramente enojado. – Ora, vamos, você precisa melhorar essa cara. – ele sorriu. – Perdeu os cigarros novamente? – ele levantou uma das mãos quando abri a boca pra responder, interrompendo-me. – Acho que estou fazendo um bom trabalho, porque, sabe como é, de certa forma estou te ajudando a largar seus vícios. Você sou eu e eu sou você, e eu não quero morrer por causa de uma dessas suas tolices rotineiras.

           - Veja só, que tal você ir à merda e ficar atolado por lá? – revirei os olhos, impaciente por ter de aturar meu próprio reflexo me dando lição de moral, e agachei-me pra olhar se havia algum cigarro debaixo da pia (acredite, eu tinha um grande acervo guardado em diversos lugares, mas ele tinha começado a desaparecer desde que o Bob-Bundão surgiu). Voltei-me pro meu reflexo e controlei a vontade de socá-lo. Eu não queria arranjar mais um machucado desnecessário. – Bob, seu filho da puta, quero meus cigarros! Não consigo pensar direito sem eles!

           - Pelo contrário, meu chapa, você fica bem melhor sem aqueles comedores de pulmões. – ele deu um meio sorriso pra, logo após, ficar sério. – Escute, deixemos de ladainha e vamos ao que interessa: fale-me dos sete exércitos e diga-me que desistirá dessa ideia maluca de nos matar. – ele cruzou os braços diante do peito, avaliando-me.

           - Vou lutar contra eles. – respondi rápida e diretamente. – E eu não vou me matar. – fiz questão de dar ênfase no “me” pra deixar claro que ele não tinha o direito de agir como se fôssemos dois. – Alguns deles têm me perseguido, mas não podem me pegar, Bob, porque eu sou invencível. – fechei minhas mãos em punhos.

           Eu queria acreditar que eu podia ser invencível, porque, somente assim, eu teria forças pra continuar lutando. De qual forma eu me vingaria de tudo se eu pensasse a cada instante na possibilidade de ser morto ao por um pé pra fora de casa? A resposta para esta pergunta veio quase imediatamente:

           - Não, cara, você não é. Você é apenas um mortal com sede de sangue. Quando você vai botar na cabeça que você estava no lugar errado na hora errada? – meu eu coçou os olhos de forma cansada. Quantas vezes nós já tínhamos tido aquela mesma conversa? Uma? Duas? Dez? Eu já havia perdido a conta. – Quer um conselho, Bob?

           - Não, eu não quero seu maldito conselho.

           - Vou dar do mesmo jeito. – ele deu de ombros. – Deixe isso quieto. Você é inteligente, mas insiste em tentar se matar. Por que diabos não sai daqui?

           - Isso de novo? Quantas vezes eu precisarei dizer que tenho a minha própria história? Preciso terminá-la. Além do mais, conto com a ajuda da Rainha.

           Ele riu, mas sem vontade. Aquele tipo de riso que alguém dá quando você diz algo idiota. Aquele tipo de riso forçado, mas indignado por você ser tão tapado a ponto de fazer/dizer besteiras.

           - A ajuda da Rainha? Você sabe o que andam falando dela. A Rainha é uma farsa e ela está te botando numa enrascada, porque ela faz o que é melhor pra si mesma. Os Cães do Inferno vão persegui-la por todos os lado e sabe por quê? Porque o inferno é isto aqui, porra! E nós somos julgados pelos nossos pecados neste lugar que chamamos de Terra. O Comandante vai te encontrar uma hora ou outra e nós nos ferraremos.

           Por que aquele filho da mãe simplesmente não podia desaparecer? Aquele falatório não mudaria minhas decisões, porque elas eram feitas de concreto e quando algo é feito de concreto é preciso muita força pra derrubá-lo. E eu não me sentia fraco naquele momento – em nenhum momento.

           - Escute, eu vou pegá-lo e o matarei, servindo-o a nós dois, servindo-o a você, porque no fundo, eu sei, que você quer matá-lo tanto quanto eu. Veja, eu não sou totalmente egoísta.

           - Não é isso que eu quero ouvir.

        - Mas será isso que farei. – disse eu, dando um fim na conversa.

        - Bob, por favor, você não precisa passar por isso. Nós não precisamos de uma serventia. – ele suspirou pesadamente. – Suma daqui e encontre um lar.

           Eu não quis mais ouvi-lo, pois, para mim, as coisas já estavam mais do que resolvidas. Sem nem mesmo uma palavra de despedida, dei as costas ao meu reflexo e dirigi-me à sala. Peguei minha mochila surrada de cima do sofá e tirei minhas duas armas, ambas carregadas, dali de dentro para guardá-las em seus devidos coldres presos à minha calça.

           - Você acha que pode combater sete exércitos com apenas duas armas?

           Virei meu rosto na direção da vidraça que dava pra varanda e lá estava eu novamente, dessa vez de pé, olhando-me como se eu fosse um pobre coitado prestes a ser morto. Ignorando sua pergunta, eu falei:

           - Quando tudo isso acabar, volto para as montanhas. Pra sempre. E trabalharei sem cessar todos os dias, cortando palha como quando eu era criança, vendo meu suor pingar pra esquecer meu passado. Assim saberei que, definitivamente, TUDO estará acabado.

           Procurei por meus coturnos, achando-os alguns segundos depois e, ao me sentar no chão de madeira para calçá-los, pensei no dia em que sangrei: eu segurava minha mulher em meus braços. Minhas mãos cobertas pelo seu sangue puro foram a minha morte. Eu sangrei como um condenado, como um porco sendo abatido. Deus sabe o quão eu sangrei naquele dia, porque minha alma ficou em frangalhos, rasgada pela ponta afiada da foice da própria Morte. Depois disso, eu nunca mais fui o mesmo, porque perdi ao conseguir uma segunda chance pelas mãos de quem me tirou a vida. Porém, quando tudo chegar ao fim, não pensarei mais. Pus-me de pé rapidamente e tranquei aquela velha lembrança na parte mais obscura da minha mente, porque a gente escolhe quando quer sofrer.

           Vá para casa, Bob. Vá para casa, meu amor”, as manchas do meu sangue insistem em dizer.

           Sim, eu vou.

           - Bob... – ouvi meu reflexo me chamar, mas eu não o olhei.

           - Adeus, Bob. – eu disse. – Vou pegar o caminho de casa.

           E então, depois de tanto tempo, eu sorri.

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    NOTA

    A história acima foi inspirada na música Seven Nation Army, de The White Stripes.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

ALFA E ÔMEGA

 

Não costumo frequentar festas, mas hoje é um dia atípico. Após uma longa sexta-feira de reuniões burocráticas, algo me disse que eu precisava estar aqui nesta noite. Absolutamente, nunca ignoro minhas intuições. As pessoas me olham espantadas, surpresas por eu estar neste ambiente onde corpos suados e frenéticos roçam uns nos outros. Elas não costumam me ver fora do alcance da mansão, porém sabem que sou filho de Idris – já me viram com ela. Evidentemente, não vim ao local sozinho. Os guardas estão espalhados por toda parte pra qualquer eventualidade – não que eu não possa me proteger com minhas próprias mãos, mas precaução nunca é excesso. Hoje em dia, não podemos confiar em qualquer um.

O balcão de mármore do bar é extenso, mas ninguém parece ligar pra ele, a não ser quando se trata de comprar bebidas, claro. Saboreio o uísque que desce amargo pela minha garganta. O barulho da festa não me distrai. O barman serve bebidas aos clientes com habilidade, distribuindo sorrisos amigáveis. Vez ou outra, mulheres e homens vêm onde estou e tentam flertar comigo. Eu os ignoro. Só quero beber em paz. A meia-luz propicia acolhida a quem chega. O salão é amplo e não me deixa sufocado – não há nem mesmo mesas ou cadeiras espalhadas pelo espaço. Observo meu reflexo no armário de bebidas do outro lado do balcão. O cabelo ondulado cai sobre meus ombros. Hoje à noite meus olhos amarelados estão um tom mais escuro. Mesmo assim, as pupilas dilatadas ainda são destacáveis. Alguém senta ao meu lado. Suspiro. Já estou preparado pra dispensar quem quer que seja quando encontro uma Alfa pretensiosa, me olhando com um sorrisinho sarcástico com o canto da boca.

- Então quer dizer que a serpente finalmente saiu do buraco.

Não é uma pergunta. Levanto as sobrancelhas, pois estou surpreso em vê-la. Observo-a rapidamente. Ela usa uma calça jeans larga, surrada em algumas partes, os velhos coturnos e uma camisa vermelha que deixa as tatuagens dos antebraços à mostra. Nenhuma arma à vista, mas ela não andaria por aí sem, pelo menos, um canivete. Os olhos puxados, de cílios grandes, me estudam com uma profundidade tão grande que eu preciso desviar os meus. Pigarreio.

- Também estou admirado que esteja aqui, Alfa. – digo e tomo outro gole da bebida pra limpar a garganta.

- Por quê? Você não me conhece. Como sabe se gosto ou não de festas? – ela levanta uma sobrancelha e olha o barman. – Por favor, uma dose de absinto.

Faço uma careta por causa da escolha. Absinto é uma bebida forte e pode te nocautear. Entretanto, duvido que qualquer coisinha a derrube. O barman a serve e ela vira a bebida como se fosse água. Não move um músculo do rosto.

- Outra, por favor. – o barman a serve mais uma vez sem pestanejar, mas ela vai com calma agora, voltando o olhar pra mim como se esperasse pela minha fala. O cabelo negro sedoso escorre pelas costas e eu me sinto tentado a tocar. Contenho-me. Eu provavelmente tomaria um soco no estômago. Já tive minha dose de temperamento explosivo da parte de Alfa.

– O que tem achado do trabalho nas últimas semanas? – eu pergunto. Gerar assunto não é o meu forte. Ela dá de ombros como se não fosse grande coisa sair por aí matando pessoas. Bem, talvez pra ela não seja.

- Normal.

- O que descobriu?

Ela solta mais um de seus sorrisos e arrasta a cadeira para perto da minha, aproximando o rosto do meu como se fosse me contar um segredo. Ela lambe os lábios e abaixa o tom da voz que estava alto há poucos minutos.

- Você sabe, Ômega, que eu só reporto informações à Idris. – ela pega a bebida e vira de novo, sem tirar os olhos de mim.

Algo me diz que Alfa não faz nada sem um propósito. Mesmo que eu a conheça há poucas semanas, pude analisar que ela não dá um passo fora da curva. Tudo é calculado com muita destreza. Ela põe uma mão na minha coxa e a atitude me puxa de volta à realidade. Nunca estivemos tão próximos.

- Você dança? – os olhos, neste instante, estão com um ar de inocência, mas eu sei que até isso é estudado.

- Não. – eu digo.

- Que tal me conceder a honra?

- Eu disse que não.

Ela dá de ombros mais uma vez, pede outra dose de absinto, bebe e levanta da cadeira. Não parece chateada.

- Você quem manda, chefe. – a última palavra sai como uma ironia e ela parte pro meio das pessoas. Eu a perco de vista. Alguma coisa me diz que eu preciso agir.

- Que se foda. – viro o resto da bebida, levanto e vou atrás dela. Eu a encontro dançando no ritmo da música, como tantos outros. Os olhos estão fechados e acho que está um pouco bêbada, submersa em pensamentos. A pele levemente prateada brilha sob as luzes fracas da boate. Alfa é linda. Afasto com o olhar qualquer pessoa que tenta se aproximar e depois me pergunto o motivo. Ela abre os olhos uns dois minutos depois quando sente minha presença. Sorri maliciosa.

- Achei que não dançasse.

- Mudei de ideia.

Ela não fala nada, mas me puxa para perto por um dos botões de minha camisa. Alfa nunca havia demonstrado tal comportamento na minha presença. Nunca consegui decifrar o que se passa em sua cabeça desde que nos conhecemos. Tal como uma caixa de surpresas, não sei o que posso esperar. Dançamos umas duas músicas até ela indicar a saída da boate com a cabeça. Ela me dá as costas e sai. Olho pros lados, averiguando se alguém percebeu e sigo-a entre o turbilhão de pessoas. Quando consigo sair, sinto o frio da noite atingir meu rosto. Se não fossem por alguns bêbados caídos no meio-fio da calçada, a avenida de prédios extremamente altos e antigos estaria praticamente vazia. Vejo Alfa virando a rua e eu caminho atrás dela, sempre atento a qualquer imprevisto que possa surgir do nada. Quando viro a esquina, ela me espera num corredor sem saída. A perna está apoiada no muro. Ela sorri, estreitando os olhos. Eu me aproximo.

- Achei que quisesse dançar. – minha voz sai mais grave do que já é. Estou de frente para ela. Há poucos centímetros entre nós.

Ela não responde. Alfa se desencosta da parede e, de repente, sou eu quem está no lugar em que estava antes. Ela encosta o corpo no meu e fica na ponta dos pés. Ela me beija. Abre minha boca com os lábios e procura minha língua com a sua. E, de repente, estou envolvendo-a pela cintura, trazendo-a para mais perto com tanto anseio que acho que posso quebrá-la. Estou surpreendido, mas eufórico. As batidas do meu coração pulsam nos meus ouvidos. Ela morde meu lábio inferior e o puxa. O corpo pressiona cada vez mais o meu contra o muro. Ela explora o que pode tocar. Fecho os olhos de prazer enquanto as mãos passeiam por áreas sensíveis. Se continuar assim, não vou poder tratá-la com tanto cavalheirismo como tenho feito nos últimos tempos. Abro os olhos e viro-a de frente pro muro. Ela apoia as mãos na parede de tijolos. Afasto o cabelo liso das costas e beijo o pescoço delicado, passando a ponta da língua pela nuca. Ela fica arrepiada. Meus braços a puxam pra mais perto. Afago seus seios e a cintura fina que me permite chegar a locais que desejo. Ela consente que uma de minhas mãos entre por sua calça. Eu a toco e ela solta um pequeno gemido. Ouvi-la assim me deixa mais excitado. Eu a quero. Não sabia que a desejava tanto até este momento. Viro-a para mim e a beijo. Alfa está faminta e eu também. Ela impulsiona o corpo e cruza as pernas na minha cintura. O único apoio que temos é a parede. Ela me olha e, apesar disso, a única coisa que posso ver nas íris negras é lascívia. Ela passa os dedos pelo meu cabelo.

- Estou com muita vontade de você. – sussurra.

- Então vamos sair daqui. – coloca-a de pé e seguro uma de suas mãos. Estou nos conduzindo para fora do corredor sem saída, mas antes olho de um lado pro outro da rua, certificando-me de que ninguém nos seguiu. Tudo certo – é o que acho. Observo Alfa novamente antes de partirmos. Ela entrelaça os dedos nos meus e isto é um consentimento para irmos adiante.

A noite nos aguarda.

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NOTA

Você pode ler mais sobre este universo em:

> Mamba Negra

> Morte

SETE EXÉRCITOS

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