Não costumo frequentar festas, mas hoje é um dia
atípico. Após uma longa sexta-feira de reuniões burocráticas, algo me disse que
eu precisava estar aqui nesta noite. Absolutamente, nunca ignoro minhas
intuições. As pessoas me olham espantadas, surpresas por eu estar neste
ambiente onde corpos suados e frenéticos roçam uns nos outros. Elas não
costumam me ver fora do alcance da mansão, porém sabem que sou filho de Idris –
já me viram com ela. Evidentemente, não vim ao local sozinho. Os guardas estão
espalhados por toda parte pra qualquer eventualidade – não que eu não possa me
proteger com minhas próprias mãos, mas precaução nunca é excesso. Hoje em dia,
não podemos confiar em qualquer um.
O balcão de mármore do bar é extenso, mas ninguém
parece ligar pra ele, a não ser quando se trata de comprar bebidas, claro.
Saboreio o uísque que desce amargo pela minha garganta. O barulho da festa não
me distrai. O barman serve bebidas aos clientes com habilidade, distribuindo
sorrisos amigáveis. Vez ou outra, mulheres e homens vêm onde estou e tentam
flertar comigo. Eu os ignoro. Só quero beber em paz. A meia-luz propicia
acolhida a quem chega. O salão é amplo e não me deixa sufocado – não há nem
mesmo mesas ou cadeiras espalhadas pelo espaço. Observo meu reflexo no armário
de bebidas do outro lado do balcão. O cabelo ondulado cai sobre meus ombros.
Hoje à noite meus olhos amarelados estão um tom mais escuro. Mesmo assim, as
pupilas dilatadas ainda são destacáveis. Alguém senta ao meu lado. Suspiro. Já
estou preparado pra dispensar quem quer que seja quando encontro uma Alfa
pretensiosa, me olhando com um sorrisinho sarcástico com o canto da boca.
- Então quer dizer que a serpente finalmente saiu
do buraco.
Não é uma pergunta. Levanto as sobrancelhas, pois
estou surpreso em vê-la. Observo-a rapidamente. Ela usa uma calça jeans larga,
surrada em algumas partes, os velhos coturnos e uma camisa vermelha que deixa
as tatuagens dos antebraços à mostra. Nenhuma arma à vista, mas ela não andaria
por aí sem, pelo menos, um canivete. Os olhos puxados, de cílios grandes, me
estudam com uma profundidade tão grande que eu preciso desviar os meus.
Pigarreio.
- Também estou admirado que esteja aqui, Alfa. –
digo e tomo outro gole da bebida pra limpar a garganta.
- Por quê? Você não me conhece. Como sabe se gosto
ou não de festas? – ela levanta uma sobrancelha e olha o barman. – Por favor,
uma dose de absinto.
Faço uma careta por causa da escolha. Absinto é uma
bebida forte e pode te nocautear. Entretanto, duvido que qualquer coisinha a
derrube. O barman a serve e ela vira a bebida como se fosse água. Não move um
músculo do rosto.
- Outra, por favor. – o barman a serve mais uma vez
sem pestanejar, mas ela vai com calma agora, voltando o olhar pra mim como se
esperasse pela minha fala. O cabelo negro sedoso escorre pelas costas e eu me
sinto tentado a tocar. Contenho-me. Eu provavelmente tomaria um soco no
estômago. Já tive minha dose de temperamento explosivo da parte de Alfa.
– O que tem achado do trabalho nas últimas semanas?
– eu pergunto. Gerar assunto não é o meu forte. Ela dá de ombros como se não
fosse grande coisa sair por aí matando pessoas. Bem, talvez pra ela não seja.
- Normal.
- O que descobriu?
Ela solta mais um de seus sorrisos e arrasta a
cadeira para perto da minha, aproximando o rosto do meu como se fosse me contar
um segredo. Ela lambe os lábios e abaixa o tom da voz que estava alto há poucos
minutos.
- Você sabe, Ômega, que eu só
reporto informações à Idris. – ela pega a bebida e vira de novo, sem tirar os
olhos de mim.
Algo me diz que Alfa não faz nada sem um propósito.
Mesmo que eu a conheça há poucas semanas, pude analisar que ela não dá um passo
fora da curva. Tudo é calculado com muita destreza. Ela põe uma mão na minha
coxa e a atitude me puxa de volta à realidade. Nunca estivemos tão próximos.
- Você dança? – os olhos, neste instante, estão com
um ar de inocência, mas eu sei que até isso é estudado.
- Não. – eu digo.
- Que tal me conceder a honra?
- Eu disse que não.
Ela dá de ombros mais uma vez, pede outra dose de
absinto, bebe e levanta da cadeira. Não parece chateada.
- Você quem manda, chefe. – a última palavra sai
como uma ironia e ela parte pro meio das pessoas. Eu a perco de vista. Alguma
coisa me diz que eu preciso agir.
- Que se foda. – viro o resto da bebida, levanto e
vou atrás dela. Eu a encontro dançando no ritmo da música, como tantos outros.
Os olhos estão fechados e acho que está um pouco bêbada, submersa em
pensamentos. A pele levemente prateada brilha sob as luzes fracas da boate. Alfa
é linda. Afasto com o olhar qualquer pessoa que tenta se aproximar e depois me
pergunto o motivo. Ela abre os olhos uns dois minutos depois quando sente minha
presença. Sorri maliciosa.
- Achei que não dançasse.
- Mudei de ideia.
Ela não fala nada, mas me puxa para perto por um
dos botões de minha camisa. Alfa nunca havia demonstrado tal comportamento na
minha presença. Nunca consegui decifrar o que se passa em sua cabeça desde que
nos conhecemos. Tal como uma caixa de surpresas, não sei o que posso esperar.
Dançamos umas duas músicas até ela indicar a saída da boate com a cabeça. Ela
me dá as costas e sai. Olho pros lados, averiguando se alguém percebeu e sigo-a
entre o turbilhão de pessoas. Quando consigo sair, sinto o frio da noite
atingir meu rosto. Se não fossem por alguns bêbados caídos no meio-fio da
calçada, a avenida de prédios extremamente altos e antigos estaria praticamente
vazia. Vejo Alfa virando a rua e eu caminho atrás dela, sempre atento a
qualquer imprevisto que possa surgir do nada. Quando viro a esquina, ela me
espera num corredor sem saída. A perna está apoiada no muro. Ela sorri,
estreitando os olhos. Eu me aproximo.
- Achei que quisesse dançar. – minha voz sai mais
grave do que já é. Estou de frente para ela. Há poucos centímetros entre nós.
Ela não responde. Alfa se
desencosta da parede e, de repente, sou eu quem está no lugar em que estava
antes. Ela encosta o corpo no meu e fica na ponta dos pés. Ela me beija. Abre
minha boca com os lábios e procura minha língua com a sua. E, de repente, estou
envolvendo-a pela cintura, trazendo-a para mais perto com tanto anseio que acho
que posso quebrá-la. Estou surpreendido, mas eufórico. As batidas do meu
coração pulsam nos meus ouvidos. Ela morde meu lábio inferior e o puxa. O corpo
pressiona cada vez mais o meu contra o muro. Ela explora o que pode tocar.
Fecho os olhos de prazer enquanto as mãos passeiam por áreas sensíveis. Se
continuar assim, não vou poder tratá-la com tanto cavalheirismo como tenho
feito nos últimos tempos. Abro os olhos e viro-a de frente pro muro. Ela apoia
as mãos na parede de tijolos. Afasto o cabelo liso das costas e beijo o pescoço
delicado, passando a ponta da língua pela nuca. Ela fica arrepiada. Meus braços
a puxam pra mais perto. Afago seus seios e a cintura fina que me permite chegar
a locais que desejo. Ela consente que uma de minhas mãos entre por sua calça.
Eu a toco e ela solta um pequeno gemido. Ouvi-la assim me deixa mais excitado.
Eu a quero. Não sabia que a desejava tanto até este momento. Viro-a para mim e
a beijo. Alfa está faminta e eu também. Ela impulsiona o corpo e cruza as
pernas na minha cintura. O único apoio que temos é a parede. Ela me olha e,
apesar disso, a única coisa que posso ver nas íris negras é lascívia. Ela passa
os dedos pelo meu cabelo.
- Estou com muita vontade de você. – sussurra.
- Então vamos sair daqui. – coloca-a de pé e seguro
uma de suas mãos. Estou nos conduzindo para fora do corredor sem saída, mas
antes olho de um lado pro outro da rua, certificando-me de que ninguém nos
seguiu. Tudo certo – é o que acho. Observo Alfa novamente antes de partirmos.
Ela entrelaça os dedos nos meus e isto é um consentimento para irmos adiante.
A noite nos aguarda.
-
NOTA
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