segunda-feira, 31 de outubro de 2022

REFLEXO DE UM SONHO

    Vejo-me atravessar um corredor coberto por plantas. Como vim parar aqui? Eu não sei, mas tenho que chegar à vila o mais rápido possível. Vai escurecer dentro de pouco tempo. Atravesso um terreno de pedras com algumas rachaduras. Faço o máximo para não cair, porque sei que existe um fundo sem fim debaixo dos meus pés – já estive por aqui. Consigo passar, mas estou tenso depois de tanto esforço. Suor brota da minha testa. Volto à caminhada exaustiva, mas agora está mais perto.

    Chego à vila quando não há mais nenhum resquício do sol. Está escuro – a noite tem uma cor azulada. Estranho… Não há luzes acesas nas casas. Tudo está deserto. Ando um pouco mais e percebo uma das casas com as portas abertas. À primeira vista parece estar abandonada, mas consigo visualizar a pequena chama de uma vela. Aproximo-me. Talvez eu possa pedir ajuda e perguntar por que diabos tudo foi deixado para trás.

    - Olá…? - eu digo meio que perguntando. Meus pés estão no batente da entrada. Como esperado, não há resposta.

     Eu não noto quando ela aparece. Tenho um susto. Seus olhos são pequenos e puxados. O cabelo é preto e escorre pelas costas. É uma criança. Uma menina. Ela tem traços asiáticos e cerca de 10 anos. Ela me olha atentamente e um calafrio sobe por minha espinha. Tento perguntar algo, mas estou sem voz. Passo pela criança, a fim de explorar a casa. Não se entra em locais abandonados e escuros. Não sei o que há comigo. Observo as paredes brancas na penumbra. É quando vejo o casal e mais outra criança – esta é pequena, quase 6 anos. Estão deitados numa cama, olhando para o vazio. Algo não está certo. Tento dar um passo para trás, mas é aí que o pesadelo começa.

     Tudo se fecha ao meu redor e sou engolido pela escuridão. Minha cabeça dói, dói, dói. Eu corro. Eles me perseguem. Eles me machucam. Agridem meu corpo. Agridem mais. Meus braços ardem. Dou de cara com os quatro. Nitidamente, eles fazem parte da mesma família. Eles têm os mesmos olhos, mas os rostos, que já foram bonitos um dia, estão em frangalhos. Eu quero gritar. A cena de um acidente de carro penetra a minha mente. Eu vejo os quatro. Mortos. Eles me fazem ver o que eu não quero. É um grande terror psicológico. Tenho a sensação de que meu crânio está se partindo. Eu corro mais uma vez, mas não há saída. Morrer é uma certeza. Corro de uma ponta à outra da casa. Eu me sinto num looping. As cenas se repetem diversas vezes. Eu quero sair daqui.

     E, de alguma forma, eu saio. Abro meus olhos no escuro. Voltei à estrada da vila, para o mesmo instante em que cheguei. Estou confuso. Engulo em seco. Vejo uma porta entreaberta e há luz elétrica. Empurro com cuidado e vejo um casal. Eles me olham com as sobrancelhas erguidas. Graças a Deus estão vivos!

    - Eles estão me perseguindo! - falo alto.

    - Quem? - a mulher me pergunta.

    - Os mortos da casa ao lado!

    O homem olha para a mulher.

   - Eu te disse! Foi eles que fizeram isso comigo! - ele aponta pro próprio rosto e eu noto que há machucados. Estendo meu antebraço e me assusto. Também estou machucado. Olho pro casal de novo.

    - É como se eu tivesse vivido 10 dias em 1!

    - Nós precisamos acabar com eles... - o homem diz.

    Não sei como vamos fazer isso, mas eu assinto. Nos levantamos ao mesmo tempo. Quando abrimos a porta, nós três damos de cara com o homem morto. O pesadelo recomeça. Eu rezo, mas de nada adianta. Palavras giram em torno do meu corpo e eu escuto:

    - Elimine as impurezas… Orgulho, raiva… - o morto arranca essas palavras de mim.

    Estou em agonia. Estou girando.

    E eu acordo.

    Penso que são 5h da manhã. Pego o celular.

    6H28.

    Acordei dois minutos antes do despertador tocar.

-

NOTA

    O texto acima foi escrito em 2017, baseado num pesadelo no qual eu era um rapaz. Lembro-me de que naquela época eu estava passando por estresses absurdos por estar escrevendo meu trabalho de conclusão de curso em diferentes horários. Uma pressão muito grande. Tive diversas experiências espirituais (ao menos é o que acho).

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

MAMBA NEGRA (Uma história de Alfa e Ômega)

           Se as pessoas soubessem que eu moro praticamente em outra civilização, não me chamariam para trabalhos tão distantes. O que me conforta é saber que o dinheiro vale todo o esforço, mesmo que, atualmente, eu viva a centenas de quilômetros daqui. Hoje em dia, meu bem, tudo pelo dinheiro.

Certo, concordemos, sempre foi assim.

Há dois guardas na entrada do casarão de cinco andares. O lugar parece antigo, quase arcaico, numa arquitetura gótica de outros tempos. Talvez seja de uma época há muito passada, como uma herança, mas, apesar disso, é bem conservado com suas paredes acinzentadas e janelas vitorianas. Os guardas me deixam passar como se já soubessem quem eu sou. Apenas assentem levemente – quase não dá pra perceber. As portas abrem e dou de cara com um grande salão de mármore preto. É frio. Seguro um arrepio que sobe pela espinha ao ser atingida por uma corrente de ar. A pessoa que mora aqui deve ser rica pra caralho, provavelmente a dona da cidade (mas tem um gosto duvidoso para decoração). Dentro, há guardas por toda parte: alguns com metralhadoras, outros com lanças e até bestas. Se eu vacilar, posso morrer rapidamente. Porém, ao que me parece, eles não pretendem me atacar, já que não me olham, mas sei que estou sendo observada.

- Estávamos à sua espera, querida. – uma mulher sentada num trono de prata me cumprimenta com um sorriso simpático. Um trono? Fala sério. – Espero que tenha sido bem recepcionada.

Dou de ombros e enfio as mãos nos bolsos do meu sobretudo militar, observando com o canto dos olhos o ambiente que não é nada acolhedor. Além do trono de prata, não existem outros móveis.

- Eu não esperava alguém como você. – ela me olha com interesse.

- O que esperava então? – levanto uma sobrancelha e tiro meus óculos escuros, deixando que a armação penda nas cordinhas de segurança.

- Alguém mais velha, talvez. Quantos anos você tem, criança? – ela se inclina pra frente e descansa o queixo sobre uma das mãos.

- Isso importa na conjuntura social e política em que vivemos hoje, senhora? – ironizo.

- Não, definitivamente não. – ela sorri mais uma vez e se recosta no trono, enquanto cruza as pernas. – Meu nome é Idris. – diz a mulher. Ela provavelmente está na casa dos 50 anos, mas esbanja jovialidade. Possui lábios carnudos, pele bronzeada e mandíbula quadrada; usa um vestido verde musgo com uma fenda numa das coxas bem torneadas. Uma trança dourada cai sobre seu ombro direito.

- Vejo que veio bem armada. – percebo um cara de pé ao lado do trono de Idris. Alguém que eu não havia prestado atenção. Estava tão parado feito os guardas que achei que fosse um. – Espadachim, hum? – ele indica minhas duas katanas que estão guardadas em bainhas nas minhas costas.

Ele é estranho. Não um estranho daqueles esquisitos. Apenas estranho de uma forma peculiar. Veste terno vermelho com uma camisa de gola rolê da mesma cor por dentro. Os sapatos sociais pretos combinam com a cobra mamba negra em torno do pescoço. Viva. O cabelo ondulado preto está jogado de lado, destacando o mesmo queixo quadrado de Idris – provavelmente mãe e filho, deduzo. Ele vem ao meu encontro e, de perto, noto que possui olhos amarelos. A cobra sibila quando sente meu cheiro. Ele faz um carinho nela, acalmando-a. A cobra se aquieta. Ele é alto, cerca de um e oitenta e cinco de altura. Ele usa uma argola dourada em cada orelha. Parece um cigano, é bonito e, claro, preciso fazer uma nota mental: perigoso barra tomar cuidado.

- O que vocês querem de mim? – olho pra ele, depois Idris.

- Morte. – ele me observa de cima, de uma maneira quase arrogante.

- Ora, não me diga. Vocês só não podiam me contratar pra lavar os banheiros, certo?

Mas ninguém ri. O homem à minha frente apenas me encara.

- Tudo bem. – levanto minhas mãos. – Qual é o plano?

- Vamos entrar nos detalhes mais tarde, senhorita. – ele puxa um tipo de pendrive do bolso da calça e aperta. De repente um holograma de um senhor aparece ao nosso lado. – Afonso, acompanhe-a até um dos aposentos, por favor. – a espécie de mordomo faz uma reverência. Ele me entrega o pendrive que, na verdade, não passa apenas de um botão retangular. – Chamarei-a quando estiver bem instalada. Aproveite a estadia, senhorita...? – ele não sorri, mas parece mais simpático (daquele jeito dos ricos quando querem se equiparar à classe social inferior).

- Alfa. – eu respondo.

É quando ele sorri com o canto da boca.

- Meu nome é Ômega.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

DÉCIMA LÓGICA

    - E aí?

    - E aí o quê? - pergunto de volta e visto minha jaqueta de couro.

    - O que tem feito? - ele me olha atentamente e dá um meio sorriso.

    - Mesma coisa de sempre. - dou de ombros.

    - Tipo...?

    Por que diabos esse cara de repente parece tão interessado no que eu tenho feito? A gente faz parte do mesmo Grupo de Assassinos, mas nunca paramos pra conversar de verdade. Acenos e treinos sempre foram o suficiente (pelo menos pra mim, porque não costumo falar com pessoas que possuem postura arrogante).

    - Tipo muita coisa. - respondo e reviro meus olhos. - Você pode me passar essa arma, por favor? - aponto pro objeto prateado que está ao seu lado sobre a mesa. Ele parece despreocupado sentado ali; seus olhos são pacientes.

    - O que eu ganho com isso? - ele segura a arma, mas não parece querer entregá-la. Um sorriso brincalhão dança na sua boca.

    Além de arrogante, um oportunista filho da mãe. A vontade que tenho de arrebentá-lo é tão intensa que preciso fechar minhas mãos em punhos pra não voar no pescoço dele. O Chefe diz que possuo muita raiva no meu interior e que isso não faz bem à minha sanidade. Não é à toa que fui parar no Grupo de Assassinos que fazem uso da lógica para matar. Parece piada, mas estou nele com o objetivo de encontrar um equilíbrio mental - isso é meio difícil quando você tem um cara pretensioso bem na sua frente.

    As pessoas o chamam de “A”. Só e somente só. Possuidor de quase um e noventa de altura, anda por aí assustando crianças indefesas (provavelmente, claro). Quando não está vestindo um longo sobretudo, exibe os braços avantajados numa simples regata. Há uma tatuagem no bíceps direito: uma coruja. Pergunto-me o porquê do desenho (bom, certo, talvez ele só goste dessa ave noturna). A questão, meus caros, é que por mais que eu queira esbofetear o rosto de A, a desgraçada da tatuagem me seduz. Fico imaginando como seria se eu a tocasse quando bem entendesse. Eu me culpo por isso, então tenho que compensar em exercícios (lê-se 100 flexões três vezes ao dia) que possam interromper tal fetiche.

    Não sei nada sobre a origem dele, mas A é meio loiro e dono, confesso, de uma barba ruiva sedutora; os olhos são verdes e os lábios são ligeiramente cheios. Costuma arrancar suspiros das outras garotas que trabalham aqui no Setor quando passamos correndo no turno da manhã no exercício diário. Sou privilegiada, ou muito azarada (e eu fico com esta opção), por ser a única garota num grupo de 9 caras. Eu sou o décimo cara.

    - Que tal um soco no estômago? - levanto as sobrancelhas.

    Ele começa a rir.

    - Você é engraçada.

    - Eu não sou palhaça pra ser engraçada.

    - Ora, vamos, seja mais flexível. Só estou tentando puxar assunto, porque somos do mesmo Grupo. Dei uma olhada nos seus resultados e eles são muito bons. Você não foi banida pro Lógica só por ser extremamente violenta, mas porque também é inteligente. Seus números são altos e sua capacidade pra agir, fazendo uso da razão, me surpreende.

    - Então você tem me observado? - estreito meus olhos, analisando-o.

    - Costumo dividir as pessoas entre estranhas e interessantes.

    - Essa não é a resposta pra minha pergunta, mas em qual categoria me encontro? - cruzo os braços.

    - Você não é uma estranha pra mim, então o que nos resta?

Eu não consigo evitar um pequeno sorriso involuntário. Droga. Fecho a cara.

    - Acho que acabei de ganhar o que eu queria. - ele me entrega a arma.

    - Não seja idiota. - guardo a arma num coldre escondido sob minha jaqueta.

    - Você está de saída pra alguma missão?

   - Sim. Eu tenho que estudar o Alvo 45 da cidade. A Boca tomou grandes proporções em pouco tempo. Eles guardam mulheres como objetos por lá. Acredite, é grotesco.

   - Estou indo ao Alvo 48. Quer uma carona?

   - Obrigada, mas eu sei dirigir.

  - Não é o que dizem. - ele ri. - O 48 é bem perto do 45. Não me negue o prazer da sua companhia.

   - Olha, eu vou aceitar essa maldita carona, mas só porque o Chefe disse que preciso ser mais sociável com os meus colegas. Cadê o carro?

    Ele me lança um sorriso malicioso.

    - Carro é coisa de amador. Se você quer ser rápido como um tigre, precisa de uma moto. - ele pega uma das minhas mãos e me puxa suavemente por todo o Setor até chegarmos ao estacionamento. 

    Merda. Solto a mão de A e enfio as minhas nos bolsos do jeans.

    Ele abre os braços e dá um sorrisão.

    - Eu te apresento ao meu grande amor: A Divina!

   Realmente, é uma puta moto. Uma Harley preta do século XX, porém extremamente nova. Mas isso não significa que ele possa dar nome a um transporte, porque, convenhamos, isso é coisa de gente lá não muito bem das ideias. Como esse cara foi parar no Lógica? Ele sobe na moto e dá uma tapinha na garupa, olhando-me ao mesmo tempo.

    - Vem. - seu sorriso é convidativo, mas nem pensar.

    - Você quer que eu suba aí?

    - Essa é a intenção.

    - Não mesmo.

    - Ah, você tá com medo.

    Trinco a mandíbula, porque medo é uma palavra que não faz parte do meu vocabulário. Subo na droga da moto e cruzo meus braços. A não move um músculo.

    - Você quer, por favor, andar logo com isso? - eu digo.

    A puxa meus braços até eu descruzá-los, fazendo com que eu os passe em torno de sua cintura.

    - Não ouse me soltar. - ele diz, e eu tomo isso como uma ordem, porque não pretendo correr o risco de cair.

    Ele dá a partida e arranca. Sou jogada para trás, mas sua cintura é uma fortaleza a qual estou presa. A sensação do vento contra meu rosto é agradável e A é quente. Eu gosto. E eu percebo que ele não é tão cretino quanto parece.

    O Alvo 45 me espera.

    Eu não posso matar.

    Mas pretendo.

-

NOTA

    Sempre vai existir o paradoxo de gostar ou não gostar das próprias histórias quando se é escritor. O pensamento é: "posso escrever melhor do que isso. Posso ser mais criativa e fugir do usual", mas levo em consideração alguns fatores como, por exemplo, o tempo. O texto acima foi escrito em 2014 e eu só tinha 20 anos - minha cabeça era completamente diferente da que tenho hoje (e no futuro vou pensar a mesma coisa deste meu presente). Mas, em resumo, o que estou querendo dizer? Que a garota do texto acima até poderia se envolver com A, mas JAMAIS levaria o relacionamento adiante por motivos simples: ele é completamente irritante. E olhando assim pra trás quando iniciei o processo dos vinte, talvez eu pensasse como a garota. "Hm, é um cara bonito e interessante, será que ele vai me olhar?". Entretanto, atualmente, caras desse tipo eu quero mais é que sigam pros raios que os partam. 

    Portanto, o final da história (depois dos inúmeros acontecimentos, claro) seria a seguinte: a garota diria o quanto A é um babaca, daria um perdido e roubaria sua moto pra nunca mais ser encontrada por ninguém. Fica com Deus! 



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

TERMO DE SOBREVIVÊNCIA


O antigo Troller preto, desgastado na pintura pelo tempo, faz barulho pelas ruas desertas enquanto sigo adiante. Pode não ser uma atitude inteligente, admito – qualquer som em vias abandonadas é perigoso, mas hoje preciso resolver assuntos rápidos. Além disso, minha mochila está abastecida com um facão e duas pistolas Taurus pra qualquer contratempo. Os semáforos estão quebrados há anos; também preciso desviar dos carros que foram deixados pra trás – conheço as vias da cidade como as próprias palmas das minhas mãos. Moro aqui há muito tempo. Não costumo correr risco com frequência, assim, fico atenta a qualquer movimento ou ataque inesperado. Sei que inúmeras pessoas podem estar me monitorando do alto dos prédios que, aparentemente, estão desocupados – o fato me deixa tensa. Viro à direita e continuo a observar o cenário ao meu redor.

Cinzas de corpos que foram queimados; uma grande quantidade de lixo pra qualquer canto que se olhe; buracos no asfalto; prédios tombados; mortos em decomposição aqui e acolá (o odor me deixa enjoada). A vegetação racha o chão, querendo respirar. Mas eu não vejo um pé de gente pelas ruas, afinal, é um pouco depois do início da tarde. O sol está no alto e se expor neste horário não é o mais indicado.

Meu nome é Pietra e tenho trinta anos. Os governos disseram que a situação se resolveria em doze meses, no máximo vinte e quatro. Você deve imaginar o quão felizes ficamos quando os testes das vacinas contra a doença começaram, mas tudo saiu pela culatra. Foram muitas mortes no processo – no início e nos meses seguintes. As cobaias humanas não reagiram ao que era esperado. Quinze anos depois, as esperanças foram esvaziadas das nossas mãos há muito.

Eu era apenas uma adolescente na época, mas tinha consciência do que estava acontecendo. Em menos de um ano desde o início do período viral, os responsáveis pela economia montaram uma estratégia de retomar o setor comercial aos poucos, mas, com isto, as pessoas começaram a crer que a doença cairia no esquecimento, logo, as medidas de prevenção diminuíram drasticamente e a enfermidade voltou a se espalhar mais uma vez. Os governos do país começaram a enfraquecer. O federal se absteve. O presidente sumiu. Os substitutos que vieram a seguir, sucumbiram – um longo beco sem saída.

Aos poucos, os diversos setores econômicos foram para os ares. As pessoas enlouqueceram. E quem não enlouqueceria? Não estávamos mais à beira de um colapso, já o vivenciávamos. Saquearam farmácias, supermercados, bancos, lotéricas... Qualquer coisa que pudesse ser roubada em nome da sobrevivência. Meus pais eram médicos, portanto, lutaram na linha de frente pra salvar o máximo de cidadãos. Cada dia em casa era uma vitória. Porém, a realidade da minha família não seguiu assim por muito tempo. Um dia minha mãe não voltou pro jantar – desde então, nunca mais a vi. Dois anos depois, foi o meu pai: certa noite ele saiu à procura de suprimentos pela cidade... Bem, você já deve saber o que ocorreu.

 Tive que me virar com o que aprendi, incluindo tarefas simples da medicina. Sempre tivemos uma vida agradável, mas depois que meus pais se foram, eu me vi de mãos atadas, lutando pra sobreviver num mundo desvairado e caótico. Eu não queria a carga nos meus braços, mas decidi levar adiante. Enquanto dobro a próxima esquina, as lembranças de sempre invadem meus pensamentos como água. Há quinze anos eu luto pra caminhar mais um pouco, não apenas por mim.

Paro o carro em frente à catedral que antes já foi impecável, mas, hoje, as paredes do lado de fora estão cinzas e sujas por causa do tempo com o acréscimo do descuido. Desligo o motor, pego a mochila abastecida e tranco a porta. A igreja está aberta – sinônimo de que a casa de Deus sempre estará ali pra quem quiser, mesmo em meio ao caos. O padre de frente pro altar, com as mãos cruzadas nas costas, observa a imagem de Jesus Cristo crucificado. A batina preta ondula com a brisa que entra pelas portas das laterais. Ele escuta meus passos ecoando no piso de mármore e se vira na minha direção. Ele é um homem alto; o cabelo louro-escuro e grisalho cai em cachos desarrumados pela testa. Os olhos castanhos são frios, mas tentam passar delicadeza num sorriso sem boca, coberto por uma máscara de pano improvisada. Ele deve ter uns 50 e poucos anos.

- Mas que surpresa agradável, minha filha. – ele diz, naquela voz que ressoa gentil, mas forte. – Pensei que viesse apenas no final de semana.

- Decidi adiantar alguns trabalhos, padre. – retribuo o sorriso por baixo do lenço que cobre boa parte do meu rosto. – Por favor, o senhor poderia me acompanhar até o carro? Tenho algumas mercadorias que não posso carregar sozinha. – aponto pra saída.

- Claro. – ele vem até onde estou e coloca uma das mãos sobre meu ombro. O toque se tornou uma proibição, mas lá estava ele quebrando a regra.

Caminhamos juntos pra fora da catedral. O vento do início da tarde é seco e o sol castiga alguns pontos da minha pele que estão expostos. Me abaixo pra amarrar o cadarço da minha bota e peço ao padre pra abrir o carro. Ele concorda, solícito. Ele até o faria de fato, caso não estivesse trancado à chave ou se eu não tivesse agarrado o cabelo de sua nuca e batido sua cabeça contra o vidro da porta. O som é alto, mas o vidro sequer trinca. A película blindada é eficaz. Ele grita, surpreso, e eu me afasto.

- Mas que...??? – ele se vira, com a mão na testa, que sangra generosamente através de um talho que segue até o nariz, manchando a máscara branca. – MAS QUE DIABOS, PIETRA?!

- Seu filho da puta, você achou mesmo que eu não ia descobrir, né?

Ele me olha atordoado, às pressas pra estancar o sangue.

- Confiei no senhor, padre. Mas aqui se faz, aqui se paga. – estou pronta pra tirar uma das pistolas da mochila, mas ele tenta me atacar com aquelas mãos nojentas. Eu desvio e passo uma rasteira em seus calcanhares. Ele é alto, mas não tem noção de como distribuir o peso pelo corpo de forma apropriada. Cai num baque impressionante. Ele urra.

Arranco a máscara ensanguentada do seu rosto. Os lábios finos começam a inchar numa velocidade absurda. O nariz está pior do que eu imaginava, num ângulo estranho. Fico satisfeita. Coloco um dos meus pés em cima do pescoço dele, a plataforma da bota pressionando o pomo-de-adão. Ele arfa e agarra meu calcanhar. Me mantenho firme e retiro uma das Taurus da mochila. Destravo a pistola e enfio o cano na boca dele. Ele grita. Faço uma nota mental de que precisarei desinfectar a arma depois.

- Sabe, padre, achei que pudéssemos manter os negócios em ordem como nos últimos anos, mas o senhor teve que fazer merda e agora eu vou precisar limpar tudo.

Ele resmunga alguma coisa, com os olhos arregalados, mas quando tenta me derrubar, disparo a arma duas vezes, silenciando qualquer palavra que ele pudesse me dizer. Os miolos e o sangue pelo asfalto são instantâneos. Faço uma careta de nojo e tiro a bota de cima do corpo morto. Os olhos ainda estão naquela mesma expressão apavorada. Se eu pudesse tirar o lenço do rosto, provavelmente teria cuspido no cadáver. Olho ao redor, esperando alguma reação de quem sabe-se lá esteja escondido. Recebo apenas o silêncio em resposta. Os papéis pela rua deserta voam ao vento. Ninguém se arrisca a vir até onde estou. Talvez estejam agradecidos ou com medo – ou apenas não querem desperdiçar balas. Tiro as luvas pretas de couro que cobrem as minhas mãos e jogo-as no chão. As pessoas não se importam mais com quem mata quem. É uma terra sem leis. Entro no carro e travo as portas. Arranco.

A situação drástica na qual vivemos atualmente mostra apenas o quão as pessoas podem se tornar violentas quando a existência está em jogo. É o estágio mais primitivo do ser humano.

Ninguém teria a coragem de matar um padre.

Mas eu tive.

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NOTA

Na maioria das vezes sempre deixo minhas narrativas em aberto com mensagens nas entrelinhas para que o leitor possa imaginar e criar o próprio contexto nas lacunas que ficam nas histórias. Geralmente escrevo segundas partes como complemento das primeiras para possíveis explicações (não é raro, mas também não é frequente, porque são contos que precisam dessas mensagens subliminares mesmo - numa história só). "Ah, Taysa, mas assim o negócio todo não tem sentido". Tem sim! É só imaginar o que pode ter acontecido e criar sua versão (a minha sempre fica guardada na memória hahaha).


SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...