Vejo-me atravessar um corredor coberto por plantas. Como vim parar aqui? Eu não sei, mas tenho que chegar à vila o mais rápido possível. Vai escurecer dentro de pouco tempo. Atravesso um terreno de pedras com algumas rachaduras. Faço o máximo para não cair, porque sei que existe um fundo sem fim debaixo dos meus pés – já estive por aqui. Consigo passar, mas estou tenso depois de tanto esforço. Suor brota da minha testa. Volto à caminhada exaustiva, mas agora está mais perto.
Chego à
vila quando não há mais nenhum resquício do sol. Está escuro – a noite tem uma
cor azulada. Estranho… Não há luzes acesas nas casas. Tudo está deserto. Ando
um pouco mais e percebo uma das casas com as portas abertas. À primeira vista
parece estar abandonada, mas consigo visualizar a pequena chama de uma vela.
Aproximo-me. Talvez eu possa pedir ajuda e perguntar por que diabos tudo foi
deixado para trás.
- Olá…? -
eu digo meio que perguntando. Meus pés estão no batente da entrada. Como
esperado, não há resposta.
Eu não
noto quando ela aparece. Tenho um susto. Seus olhos são pequenos e puxados. O
cabelo é preto e escorre pelas costas. É uma criança. Uma menina. Ela tem
traços asiáticos e cerca de 10 anos. Ela me olha atentamente e um calafrio sobe
por minha espinha. Tento perguntar algo, mas estou sem voz. Passo pela criança,
a fim de explorar a casa. Não se entra em locais abandonados e escuros. Não sei
o que há comigo. Observo as paredes brancas na penumbra. É quando vejo o casal
e mais outra criança – esta é pequena, quase 6 anos. Estão deitados numa cama,
olhando para o vazio. Algo não está certo. Tento dar um passo para trás, mas é
aí que o pesadelo começa.
Tudo se
fecha ao meu redor e sou engolido pela escuridão. Minha cabeça dói, dói, dói.
Eu corro. Eles me perseguem. Eles me machucam. Agridem meu corpo. Agridem mais.
Meus braços ardem. Dou de cara com os quatro. Nitidamente, eles fazem parte da
mesma família. Eles têm os mesmos olhos, mas os rostos, que já foram bonitos um
dia, estão em frangalhos. Eu quero gritar. A cena de um acidente de carro
penetra a minha mente. Eu vejo os quatro. Mortos. Eles me fazem ver o que eu
não quero. É um grande terror psicológico. Tenho a sensação de que meu crânio
está se partindo. Eu corro mais uma vez, mas não há saída. Morrer é uma
certeza. Corro de uma ponta à outra da casa. Eu me sinto num looping. As
cenas se repetem diversas vezes. Eu quero sair daqui.
E, de
alguma forma, eu saio. Abro meus olhos no escuro. Voltei à estrada da vila,
para o mesmo instante em que cheguei. Estou confuso. Engulo em seco. Vejo uma
porta entreaberta e há luz elétrica. Empurro com cuidado e vejo um casal. Eles
me olham com as sobrancelhas erguidas. Graças a Deus estão vivos!
- Eles
estão me perseguindo! - falo alto.
- Quem? -
a mulher me pergunta.
- Os
mortos da casa ao lado!
O homem
olha para a mulher.
- Eu te
disse! Foi eles que fizeram isso comigo! - ele aponta pro próprio rosto e eu
noto que há machucados. Estendo meu antebraço e me assusto. Também estou
machucado. Olho pro casal de novo.
- É como
se eu tivesse vivido 10 dias em 1!
- Nós
precisamos acabar com eles... - o homem diz.
Não sei
como vamos fazer isso, mas eu assinto. Nos levantamos ao mesmo tempo. Quando
abrimos a porta, nós três damos de cara com o homem morto. O pesadelo recomeça.
Eu rezo, mas de nada adianta. Palavras giram em torno do meu corpo e eu escuto:
- Elimine as impurezas… Orgulho, raiva… - o morto arranca essas palavras de mim.
Estou em
agonia. Estou girando.
E eu
acordo.
Penso que
são 5h da manhã. Pego o celular.
6H28.
Acordei
dois minutos antes do despertador tocar.
-
NOTA
O texto acima foi escrito em 2017, baseado num pesadelo no qual eu era um rapaz. Lembro-me de que naquela época eu estava passando por estresses absurdos por estar escrevendo meu trabalho de conclusão de curso em diferentes horários. Uma pressão muito grande. Tive diversas experiências espirituais (ao menos é o que acho).