terça-feira, 28 de junho de 2022

SOL DE JUNHO

 

Maria Rosa da Conceição – ou simplesmente Rosinha, como todos a chamavam naquela época. Menina do sertão, do Nordeste, possuía características tímidas, porém marcantes. O cabelo ruivo cacheado e os olhos azuis emolduravam um rostinho lindo coberto de sardas que mais parecia o céu quando sorria. Rosinha era uma das meninas mais peculiares da nossa rua – começando pelo cabelo de fogo. Seus pais eram morenos e os outros familiares também. Todos se perguntavam como diabos ela tinha nascido com o sol na cabeça. Era de poucas palavras e de amigos também, por isso eu sempre quis me aproximar, apesar de não saber como.

Vamos voltar ao presente (ou ao passado). É 1980 e os pais protegem as filhas como se elas fossem jóias – e de fato são. Eu tenho 18 anos e não sou daqui. Vim do Sudeste porque meus pais se divorciaram e minha mãe precisou se mudar. Inicialmente, eu não gostei de nada até conhecer Rosinha.

É mês de junho e a cidade está em festa. Hoje é dia de quermesse e véspera de Santo Antônio. O chão de areia vermelha mancha meus pés. Estou cansado e entendiado, sentado num balanço perto de uma fogueira. Minha mãe se diverte e conversa com os novos amigos – ao contrário de mim que ainda não tenho nenhum. Estou cogitando a possibilidade de ir embora pra casa quando uma cascata de cabelos vermelhos passa por mim. Sinto aquela quentura de início de manhã. É Rosinha. Tão linda como eu nunca vi. Eu a sigo com o olhar e decido ir até onde ela está. Me aproximo da barraquinha de pipoca. Ela está bem ao meu lado. Posso analisá-la com a minha visão periférica. O cabelo cacheado chega até a cintura e parece uma cachoeira de fogo. O vestido de chita verde com estampa florida é simples, mas fica bem em seu corpo magrinho. Estou hipnotizado com sua presença quando escuto uma voz.

- Ei, menino, cê num vai querer nada?

Estou muito petrificado pra acreditar que ela está falando comigo.

- Cê tá me ouvindo? – pergunta mais uma vez.

- Eu... – começo a dizer.

Ela se aproxima e pergunta:

- Cê num tem dinheiro? – ela pisca aqueles grandes olhos pra mim. Está tão próxima que eu posso sentir seu cheiro: frutas cítricas, como laranja ou limão. Eu quero tocá-la.

- Eu...

Ela revira os olhos e é lindo demais.

- Mais um saquinho de pipoca, seu José. – ela paga e depois me entrega o saquinho. Eu seguro, mas não sei o que dizer. Então ela me dá as costas e vai embora. E é aí que a realidade me volta mais uma vez. Corro atrás dela.

- Ei, você não precisava comprar pra mim. – eu digo. Ela dá de ombros e come um punhado da pipoca.

- Cê só ficou parado; achei que num tivesse dinheiro. Comprei. Pronto.

- Depois eu pago, então.

- Num precisa. Eu comprei porque quis.

- Hm, obrigado. – e eu não sei mais o que dizer.

- Então, cê é o garoto novo da cidade grande. Tá achando o que daqui? – ela me olha e é outro choque. Me concentro em não parecer idiota.

- Parado. – eu rio, mas não há graça.

- Porque cê num tem o que fazer, né? – ela diz. Seu sotaque é carregado e forte. – Mas logo as coisas mudam. Relaxe. – ela senta no balanço onde eu estava há poucos minutos. Eu sento numa pedra ao lado.

Comemos a pipoca e observamos a festa em silêncio. Eu quero tanto conversar, mas não sei por onde começar. É Rosinha que vem ao meu socorro.

- E aí? Cê vai ficar calado ou vai me dizer seu nome? – ela está me olhando.

- Miguel.

- O meu é Maria Rosa. – ela sorri. – Mas todo mundo me chama de Rosinha.

- Eu sei. – certamente eu não deveria ter dito isso.

- Como?

Minha vez de dar ombros.

- Ouvi por aí. – ela parece aceitar a resposta.

- E quantos anos cê tem?

- Isso é uma espécie de entrevista? – eu rio, mas me arrependo de ter parecido arrogante. Ela cora. Respondo no mesmo instante. – Tenho 18 e você?

         - 17. Logo completo 18. Loguinho, loguinho.

         - Quando?

         - Dezembro.

         - Está um pouco longe.

      - O tempo corre rápido. – ela sorri com o canto da boca e levanta. – Prazer, Miguel. – ela estende a mão e pega a minha, dando um pequeno aperto. – Agora preciso encontrar meus pais.

Eu me levanto e quero abraçá-la, mas me contento em ter a ousadia de dar um beijo em sua bochecha. Ela fica vermelha e olha pros lados sem saber o que fazer.

- Tá bom, tchau. – e sai correndo.

O cabelo dança nas costas enquanto ela corre. Rosinha olha mais uma vez pra trás e sorri. Eu aceno. Quando a perco de vista no meio da multidão, eu quero dançar, mas me contenho.

Rosinha, a flor mais bonito do jardim, ganhou meu coração.


SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...