Maria Rosa da Conceição – ou
simplesmente Rosinha, como todos a chamavam naquela época. Menina do sertão, do
Nordeste, possuía características tímidas, porém marcantes. O cabelo ruivo
cacheado e os olhos azuis emolduravam um rostinho lindo coberto de sardas que
mais parecia o céu quando sorria. Rosinha era uma das meninas mais peculiares
da nossa rua – começando pelo cabelo de fogo. Seus pais eram morenos e os
outros familiares também. Todos se perguntavam como diabos ela tinha nascido
com o sol na cabeça. Era de poucas palavras e de amigos também, por isso eu
sempre quis me aproximar, apesar de não saber como.
Vamos voltar ao presente (ou ao
passado). É 1980 e os pais protegem as filhas como se elas fossem jóias – e de
fato são. Eu tenho 18 anos e não sou daqui. Vim do Sudeste porque meus pais se
divorciaram e minha mãe precisou se mudar. Inicialmente, eu não gostei de nada
até conhecer Rosinha.
É mês de junho e a cidade está em
festa. Hoje é dia de quermesse e véspera de Santo Antônio. O chão de areia
vermelha mancha meus pés. Estou cansado e entendiado, sentado num balanço perto
de uma fogueira. Minha mãe se diverte e conversa com os novos amigos – ao
contrário de mim que ainda não tenho nenhum. Estou cogitando a possibilidade de
ir embora pra casa quando uma cascata de cabelos vermelhos passa por mim. Sinto
aquela quentura de início de manhã. É Rosinha. Tão linda como eu nunca vi. Eu a
sigo com o olhar e decido ir até onde ela está. Me aproximo da barraquinha de
pipoca. Ela está bem ao meu lado. Posso analisá-la com a minha visão
periférica. O cabelo cacheado chega até a cintura e parece uma cachoeira de
fogo. O vestido de chita verde com estampa florida é simples, mas fica bem em
seu corpo magrinho. Estou hipnotizado com sua presença quando escuto uma voz.
- Ei, menino, cê num vai querer
nada?
Estou muito petrificado pra
acreditar que ela está falando comigo.
- Cê tá me ouvindo? – pergunta
mais uma vez.
- Eu... – começo a dizer.
Ela se aproxima e pergunta:
- Cê num tem dinheiro? – ela
pisca aqueles grandes olhos pra mim. Está tão próxima que eu posso sentir seu
cheiro: frutas cítricas, como laranja ou limão. Eu quero tocá-la.
- Eu...
Ela
revira os olhos e é lindo demais.
- Mais um saquinho de pipoca, seu
José. – ela paga e depois me entrega o saquinho. Eu seguro, mas não sei o que
dizer. Então ela me dá as costas e vai embora. E é aí que a realidade me volta mais
uma vez. Corro atrás dela.
- Ei, você não precisava comprar
pra mim. – eu digo. Ela dá de ombros e come um punhado da pipoca.
- Cê só ficou parado; achei que
num tivesse dinheiro. Comprei. Pronto.
- Depois eu pago, então.
- Num precisa. Eu comprei porque
quis.
- Hm, obrigado. – e eu não sei mais o que dizer.
- Então, cê é o garoto novo da cidade grande. Tá achando o que daqui? – ela me olha e é outro choque. Me concentro em não parecer idiota.
- Parado. – eu rio, mas não há
graça.
- Porque cê num tem o que fazer,
né? – ela diz. Seu sotaque é carregado e forte. – Mas logo as coisas mudam.
Relaxe. – ela senta no balanço onde eu estava há poucos minutos. Eu sento numa
pedra ao lado.
Comemos a pipoca e observamos a
festa em silêncio. Eu quero tanto conversar, mas não sei por onde começar. É
Rosinha que vem ao meu socorro.
- E aí? Cê vai ficar calado ou
vai me dizer seu nome? – ela está me olhando.
- Miguel.
- O meu é Maria Rosa. – ela
sorri. – Mas todo mundo me chama de Rosinha.
- Eu sei. – certamente eu não
deveria ter dito isso.
- Como?
Minha vez de dar ombros.
- Ouvi por aí. – ela parece
aceitar a resposta.
- E quantos anos cê tem?
- Isso é uma espécie de
entrevista? – eu rio, mas me arrependo de ter parecido arrogante. Ela cora.
Respondo no mesmo instante. – Tenho 18 e você?
- 17. Logo completo 18. Loguinho, loguinho.
- Quando?
- Dezembro.
- Está um pouco longe.
- O tempo corre rápido. – ela sorri com o canto da boca e levanta. – Prazer, Miguel. – ela estende a mão e pega a minha, dando um pequeno aperto. – Agora preciso encontrar meus pais.
Eu me levanto e quero abraçá-la,
mas me contento em ter a ousadia de dar um beijo em sua bochecha. Ela fica
vermelha e olha pros lados sem saber o que fazer.
- Tá bom, tchau. – e sai
correndo.
O cabelo dança nas costas enquanto ela corre. Rosinha olha mais uma vez pra trás e sorri. Eu aceno. Quando a perco de vista no meio da multidão, eu quero dançar, mas me contenho.
Rosinha, a flor mais bonito do jardim, ganhou meu coração.