- Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bolsos da minha jaqueta e do jeans à procura de um. Não obtive resultados satisfatórios, o que me deixou estressado. – Diabos, onde estão meus cigarros?! – grunhi e passei as mãos de forma frustrada no meu cabelo, emaranhando-o. – Se vou lutar contra eles, preciso fumar.
Levantei-me do sofá puído da sala e
caminhei lentamente – minha perna esquerda, ferida, era mais um fardo a ser
suportado, já que não passava de uma consequência da minha última caçada – na direção do banheiro e
olhei-me no espelho trincado: eu estava um trapo. Até Jesus, Maria e José sabem
que já tive dias melhores. Ao observar meu rosto de perto, percebi que minhas
olheiras eram absurdamente profundas, enquanto meus olhos verdes se pareciam
com um rio coberto por lodo. A barba por fazer contrastava em minha pele branca
e meus cabelos negros cacheados (sempre desalinhados) me deixavam com um ar de
psicopata. Então aqueles velhos pensamentos aleatórios me assaltaram: querendo
ou não, eu era o mocinho dessa porra
toda que vinha ocorrendo nos últimos anos. Porém, como é de praxe, o mocinho
sempre se fode, mesmo que aconteça muito tarde ou muito cedo – no meu caso,
estou fodido desde sempre.
Cansado de tanto me martirizar, liguei
a torneira da pia, juntei as mãos em concha e aparei a água que fluía vagarosa. Inclinei-me e lavei meu rosto no intuito de amenizar a vontade
louca de fumar e a ressaca constante (resultado de muitas doses de vodca). Olhei-me
mais uma vez no espelho e pensei “de novo
não”, porque eu sorria – apesar de não ser eu de fato. O cabelo arrumado e nenhum vestígio de barba deixavam
aquele cara com a aparência de mocinho que EU deveria ter. Ironicamente, o que
me agradava era que ele não passava de um mero reflexo do meu eu – alguém que eu queria esconder (porque, no
fundo, todos nós queremos esconder quem realmente somos, seja por medo ou
vergonha).
- Mais um dia cansativo, Bob? – perguntou
ele (ou eu, que seja) com uma pontada de cinismo na voz que me deixou ligeiramente
enojado. – Ora, vamos, você precisa melhorar essa cara. – ele sorriu. – Perdeu
os cigarros novamente? – ele levantou uma das mãos quando abri a boca pra
responder, interrompendo-me. – Acho que estou fazendo um bom trabalho, porque,
sabe como é, de certa forma estou te ajudando a largar seus vícios. Você sou eu e eu sou você, e eu não
quero morrer por causa de uma dessas suas tolices rotineiras.
- Veja só, que tal você ir à merda e
ficar atolado por lá? – revirei os olhos, impaciente por ter de aturar meu próprio
reflexo me dando lição de moral, e agachei-me pra olhar se havia algum cigarro
debaixo da pia (acredite, eu tinha um grande acervo guardado em diversos
lugares, mas ele tinha começado a desaparecer desde que o Bob-Bundão surgiu). Voltei-me pro meu reflexo e controlei a vontade
de socá-lo. Eu não queria arranjar mais um machucado desnecessário. – Bob, seu
filho da puta, quero meus cigarros! Não consigo pensar direito sem eles!
- Pelo contrário, meu chapa, você
fica bem melhor sem aqueles comedores de
pulmões. – ele deu um meio sorriso pra, logo após, ficar sério. – Escute,
deixemos de ladainha e vamos ao que interessa: fale-me dos sete exércitos e
diga-me que desistirá dessa ideia maluca de nos
matar. – ele cruzou os braços diante do peito, avaliando-me.
- Vou lutar contra eles. – respondi
rápida e diretamente. – E eu não vou me
matar. – fiz questão de dar ênfase no “me” pra deixar claro que ele não tinha o
direito de agir como se fôssemos dois. – Alguns deles têm me perseguido, mas não podem me pegar, Bob, porque eu sou
invencível. – fechei minhas mãos em punhos.
Eu queria acreditar que eu podia ser
invencível, porque, somente assim, eu teria forças pra continuar lutando. De
qual forma eu me vingaria de tudo se eu pensasse a cada instante na
possibilidade de ser morto ao por um pé pra fora de casa? A resposta para esta
pergunta veio quase imediatamente:
- Não, cara, você não é. Você é
apenas um mortal com sede de sangue. Quando você vai botar na cabeça que você
estava no lugar errado na hora errada? – meu
eu coçou os olhos de forma cansada. Quantas vezes nós já tínhamos tido
aquela mesma conversa? Uma? Duas? Dez? Eu já havia perdido a conta. – Quer um
conselho, Bob?
- Não, eu não quero seu maldito
conselho.
- Vou dar do mesmo jeito. – ele deu
de ombros. – Deixe isso quieto. Você é inteligente, mas insiste em tentar se
matar. Por que diabos não sai daqui?
- Isso de novo? Quantas vezes eu
precisarei dizer que tenho a minha própria história? Preciso terminá-la. Além
do mais, conto com a ajuda da Rainha.
Ele riu, mas sem vontade. Aquele
tipo de riso que alguém dá quando você diz algo idiota. Aquele tipo de riso
forçado, mas indignado por você ser tão tapado a ponto de fazer/dizer
besteiras.
- A ajuda da Rainha? Você sabe o que
andam falando dela. A Rainha é uma farsa e ela está te botando numa enrascada,
porque ela faz o que é melhor pra si mesma. Os Cães do Inferno vão persegui-la por todos os lado e sabe por quê?
Porque o inferno é isto aqui, porra! E nós somos julgados pelos nossos pecados neste
lugar que chamamos de Terra. O Comandante
vai te encontrar uma hora ou outra e nós nos ferraremos.
Por que aquele filho da mãe
simplesmente não podia desaparecer? Aquele falatório não mudaria minhas decisões,
porque elas eram feitas de concreto e quando algo é feito de concreto é preciso
muita força pra derrubá-lo. E eu não me sentia fraco naquele momento – em nenhum momento.
- Escute, eu vou pegá-lo e o matarei, servindo-o a nós
dois, servindo-o a você, porque no fundo, eu sei, que você quer matá-lo tanto
quanto eu. Veja, eu não sou totalmente egoísta.
- Não é isso que eu quero ouvir.
- Mas será isso que farei. – disse eu, dando um fim na conversa.
- Bob, por favor, você não precisa passar por isso. Nós não precisamos de uma serventia. –
ele suspirou pesadamente. – Suma daqui e encontre um lar.
Eu não quis mais ouvi-lo, pois, para
mim, as coisas já estavam mais do que resolvidas. Sem nem mesmo uma palavra de
despedida, dei as costas ao meu reflexo e dirigi-me à sala. Peguei minha
mochila surrada de cima do sofá e tirei minhas duas armas, ambas carregadas,
dali de dentro para guardá-las em seus devidos coldres presos à minha calça.
- Você acha que pode combater sete
exércitos com apenas duas armas?
Virei meu rosto na direção da
vidraça que dava pra varanda e lá estava eu
novamente, dessa vez de pé, olhando-me como se eu fosse um pobre coitado
prestes a ser morto. Ignorando sua pergunta, eu falei:
- Quando tudo isso acabar, volto
para as montanhas. Pra sempre. E trabalharei sem cessar todos os dias, cortando
palha como quando eu era criança, vendo meu suor pingar pra esquecer meu
passado. Assim saberei que, definitivamente, TUDO estará acabado.
Procurei por meus coturnos, achando-os
alguns segundos depois e, ao me sentar no chão de madeira para calçá-los,
pensei no dia em que sangrei: eu segurava minha
mulher em meus braços. Minhas mãos cobertas pelo seu sangue puro foram a minha
morte. Eu sangrei como um condenado, como um porco sendo abatido. Deus sabe o
quão eu sangrei naquele dia, porque minha alma ficou em frangalhos, rasgada
pela ponta afiada da foice da própria Morte. Depois disso, eu nunca mais fui o
mesmo, porque perdi ao conseguir uma segunda chance pelas mãos de quem me tirou
a vida. Porém, quando tudo chegar ao fim, não pensarei mais. Pus-me de pé
rapidamente e tranquei aquela velha lembrança na parte mais obscura da minha
mente, porque a gente escolhe quando quer sofrer.
“Vá para casa, Bob. Vá para casa, meu amor”, as manchas do meu sangue insistem em dizer.
Sim,
eu vou.
- Bob... – ouvi meu reflexo me
chamar, mas eu não o olhei.
- Adeus, Bob. – eu disse. – Vou pegar
o caminho de casa.
E então, depois de tanto tempo, eu sorri.
-
NOTA
A história acima foi inspirada na música Seven Nation Army, de The White Stripes.