terça-feira, 21 de janeiro de 2025

SETE EXÉRCITOS

           - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bolsos da minha jaqueta e do jeans à procura de um. Não obtive resultados satisfatórios, o que me deixou estressado. – Diabos, onde estão meus cigarros?! – grunhi e passei as mãos de forma frustrada no meu cabelo, emaranhando-o. – Se vou lutar contra eles, preciso fumar.

           Levantei-me do sofá puído da sala e caminhei lentamente – minha perna esquerda, ferida, era mais um fardo a ser suportado, já que não passava de uma consequência da minha última caçada – na direção do banheiro e olhei-me no espelho trincado: eu estava um trapo. Até Jesus, Maria e José sabem que já tive dias melhores. Ao observar meu rosto de perto, percebi que minhas olheiras eram absurdamente profundas, enquanto meus olhos verdes se pareciam com um rio coberto por lodo. A barba por fazer contrastava em minha pele branca e meus cabelos negros cacheados (sempre desalinhados) me deixavam com um ar de psicopata. Então aqueles velhos pensamentos aleatórios me assaltaram: querendo ou não, eu era o mocinho dessa porra toda que vinha ocorrendo nos últimos anos. Porém, como é de praxe, o mocinho sempre se fode, mesmo que aconteça muito tarde ou muito cedo – no meu caso, estou fodido desde sempre.

           Cansado de tanto me martirizar, liguei a torneira da pia, juntei as mãos em concha e aparei a água que fluía vagarosa. Inclinei-me e lavei meu rosto no intuito de amenizar a vontade louca de fumar e a ressaca constante (resultado de muitas doses de vodca). Olhei-me mais uma vez no espelho e pensei “de novo não”, porque eu sorria – apesar de não ser eu de fato. O cabelo arrumado e nenhum vestígio de barba deixavam aquele cara com a aparência de mocinho que EU deveria ter. Ironicamente, o que me agradava era que ele não passava de um mero reflexo do meu eu – alguém que eu queria esconder (porque, no fundo, todos nós queremos esconder quem realmente somos, seja por medo ou vergonha).

           - Mais um dia cansativo, Bob? – perguntou ele (ou eu, que seja) com uma pontada de cinismo na voz que me deixou ligeiramente enojado. – Ora, vamos, você precisa melhorar essa cara. – ele sorriu. – Perdeu os cigarros novamente? – ele levantou uma das mãos quando abri a boca pra responder, interrompendo-me. – Acho que estou fazendo um bom trabalho, porque, sabe como é, de certa forma estou te ajudando a largar seus vícios. Você sou eu e eu sou você, e eu não quero morrer por causa de uma dessas suas tolices rotineiras.

           - Veja só, que tal você ir à merda e ficar atolado por lá? – revirei os olhos, impaciente por ter de aturar meu próprio reflexo me dando lição de moral, e agachei-me pra olhar se havia algum cigarro debaixo da pia (acredite, eu tinha um grande acervo guardado em diversos lugares, mas ele tinha começado a desaparecer desde que o Bob-Bundão surgiu). Voltei-me pro meu reflexo e controlei a vontade de socá-lo. Eu não queria arranjar mais um machucado desnecessário. – Bob, seu filho da puta, quero meus cigarros! Não consigo pensar direito sem eles!

           - Pelo contrário, meu chapa, você fica bem melhor sem aqueles comedores de pulmões. – ele deu um meio sorriso pra, logo após, ficar sério. – Escute, deixemos de ladainha e vamos ao que interessa: fale-me dos sete exércitos e diga-me que desistirá dessa ideia maluca de nos matar. – ele cruzou os braços diante do peito, avaliando-me.

           - Vou lutar contra eles. – respondi rápida e diretamente. – E eu não vou me matar. – fiz questão de dar ênfase no “me” pra deixar claro que ele não tinha o direito de agir como se fôssemos dois. – Alguns deles têm me perseguido, mas não podem me pegar, Bob, porque eu sou invencível. – fechei minhas mãos em punhos.

           Eu queria acreditar que eu podia ser invencível, porque, somente assim, eu teria forças pra continuar lutando. De qual forma eu me vingaria de tudo se eu pensasse a cada instante na possibilidade de ser morto ao por um pé pra fora de casa? A resposta para esta pergunta veio quase imediatamente:

           - Não, cara, você não é. Você é apenas um mortal com sede de sangue. Quando você vai botar na cabeça que você estava no lugar errado na hora errada? – meu eu coçou os olhos de forma cansada. Quantas vezes nós já tínhamos tido aquela mesma conversa? Uma? Duas? Dez? Eu já havia perdido a conta. – Quer um conselho, Bob?

           - Não, eu não quero seu maldito conselho.

           - Vou dar do mesmo jeito. – ele deu de ombros. – Deixe isso quieto. Você é inteligente, mas insiste em tentar se matar. Por que diabos não sai daqui?

           - Isso de novo? Quantas vezes eu precisarei dizer que tenho a minha própria história? Preciso terminá-la. Além do mais, conto com a ajuda da Rainha.

           Ele riu, mas sem vontade. Aquele tipo de riso que alguém dá quando você diz algo idiota. Aquele tipo de riso forçado, mas indignado por você ser tão tapado a ponto de fazer/dizer besteiras.

           - A ajuda da Rainha? Você sabe o que andam falando dela. A Rainha é uma farsa e ela está te botando numa enrascada, porque ela faz o que é melhor pra si mesma. Os Cães do Inferno vão persegui-la por todos os lado e sabe por quê? Porque o inferno é isto aqui, porra! E nós somos julgados pelos nossos pecados neste lugar que chamamos de Terra. O Comandante vai te encontrar uma hora ou outra e nós nos ferraremos.

           Por que aquele filho da mãe simplesmente não podia desaparecer? Aquele falatório não mudaria minhas decisões, porque elas eram feitas de concreto e quando algo é feito de concreto é preciso muita força pra derrubá-lo. E eu não me sentia fraco naquele momento – em nenhum momento.

           - Escute, eu vou pegá-lo e o matarei, servindo-o a nós dois, servindo-o a você, porque no fundo, eu sei, que você quer matá-lo tanto quanto eu. Veja, eu não sou totalmente egoísta.

           - Não é isso que eu quero ouvir.

        - Mas será isso que farei. – disse eu, dando um fim na conversa.

        - Bob, por favor, você não precisa passar por isso. Nós não precisamos de uma serventia. – ele suspirou pesadamente. – Suma daqui e encontre um lar.

           Eu não quis mais ouvi-lo, pois, para mim, as coisas já estavam mais do que resolvidas. Sem nem mesmo uma palavra de despedida, dei as costas ao meu reflexo e dirigi-me à sala. Peguei minha mochila surrada de cima do sofá e tirei minhas duas armas, ambas carregadas, dali de dentro para guardá-las em seus devidos coldres presos à minha calça.

           - Você acha que pode combater sete exércitos com apenas duas armas?

           Virei meu rosto na direção da vidraça que dava pra varanda e lá estava eu novamente, dessa vez de pé, olhando-me como se eu fosse um pobre coitado prestes a ser morto. Ignorando sua pergunta, eu falei:

           - Quando tudo isso acabar, volto para as montanhas. Pra sempre. E trabalharei sem cessar todos os dias, cortando palha como quando eu era criança, vendo meu suor pingar pra esquecer meu passado. Assim saberei que, definitivamente, TUDO estará acabado.

           Procurei por meus coturnos, achando-os alguns segundos depois e, ao me sentar no chão de madeira para calçá-los, pensei no dia em que sangrei: eu segurava minha mulher em meus braços. Minhas mãos cobertas pelo seu sangue puro foram a minha morte. Eu sangrei como um condenado, como um porco sendo abatido. Deus sabe o quão eu sangrei naquele dia, porque minha alma ficou em frangalhos, rasgada pela ponta afiada da foice da própria Morte. Depois disso, eu nunca mais fui o mesmo, porque perdi ao conseguir uma segunda chance pelas mãos de quem me tirou a vida. Porém, quando tudo chegar ao fim, não pensarei mais. Pus-me de pé rapidamente e tranquei aquela velha lembrança na parte mais obscura da minha mente, porque a gente escolhe quando quer sofrer.

           Vá para casa, Bob. Vá para casa, meu amor”, as manchas do meu sangue insistem em dizer.

           Sim, eu vou.

           - Bob... – ouvi meu reflexo me chamar, mas eu não o olhei.

           - Adeus, Bob. – eu disse. – Vou pegar o caminho de casa.

           E então, depois de tanto tempo, eu sorri.

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    NOTA

    A história acima foi inspirada na música Seven Nation Army, de The White Stripes.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

ALFA E ÔMEGA

 

Não costumo frequentar festas, mas hoje é um dia atípico. Após uma longa sexta-feira de reuniões burocráticas, algo me disse que eu precisava estar aqui nesta noite. Absolutamente, nunca ignoro minhas intuições. As pessoas me olham espantadas, surpresas por eu estar neste ambiente onde corpos suados e frenéticos roçam uns nos outros. Elas não costumam me ver fora do alcance da mansão, porém sabem que sou filho de Idris – já me viram com ela. Evidentemente, não vim ao local sozinho. Os guardas estão espalhados por toda parte pra qualquer eventualidade – não que eu não possa me proteger com minhas próprias mãos, mas precaução nunca é excesso. Hoje em dia, não podemos confiar em qualquer um.

O balcão de mármore do bar é extenso, mas ninguém parece ligar pra ele, a não ser quando se trata de comprar bebidas, claro. Saboreio o uísque que desce amargo pela minha garganta. O barulho da festa não me distrai. O barman serve bebidas aos clientes com habilidade, distribuindo sorrisos amigáveis. Vez ou outra, mulheres e homens vêm onde estou e tentam flertar comigo. Eu os ignoro. Só quero beber em paz. A meia-luz propicia acolhida a quem chega. O salão é amplo e não me deixa sufocado – não há nem mesmo mesas ou cadeiras espalhadas pelo espaço. Observo meu reflexo no armário de bebidas do outro lado do balcão. O cabelo ondulado cai sobre meus ombros. Hoje à noite meus olhos amarelados estão um tom mais escuro. Mesmo assim, as pupilas dilatadas ainda são destacáveis. Alguém senta ao meu lado. Suspiro. Já estou preparado pra dispensar quem quer que seja quando encontro uma Alfa pretensiosa, me olhando com um sorrisinho sarcástico com o canto da boca.

- Então quer dizer que a serpente finalmente saiu do buraco.

Não é uma pergunta. Levanto as sobrancelhas, pois estou surpreso em vê-la. Observo-a rapidamente. Ela usa uma calça jeans larga, surrada em algumas partes, os velhos coturnos e uma camisa vermelha que deixa as tatuagens dos antebraços à mostra. Nenhuma arma à vista, mas ela não andaria por aí sem, pelo menos, um canivete. Os olhos puxados, de cílios grandes, me estudam com uma profundidade tão grande que eu preciso desviar os meus. Pigarreio.

- Também estou admirado que esteja aqui, Alfa. – digo e tomo outro gole da bebida pra limpar a garganta.

- Por quê? Você não me conhece. Como sabe se gosto ou não de festas? – ela levanta uma sobrancelha e olha o barman. – Por favor, uma dose de absinto.

Faço uma careta por causa da escolha. Absinto é uma bebida forte e pode te nocautear. Entretanto, duvido que qualquer coisinha a derrube. O barman a serve e ela vira a bebida como se fosse água. Não move um músculo do rosto.

- Outra, por favor. – o barman a serve mais uma vez sem pestanejar, mas ela vai com calma agora, voltando o olhar pra mim como se esperasse pela minha fala. O cabelo negro sedoso escorre pelas costas e eu me sinto tentado a tocar. Contenho-me. Eu provavelmente tomaria um soco no estômago. Já tive minha dose de temperamento explosivo da parte de Alfa.

– O que tem achado do trabalho nas últimas semanas? – eu pergunto. Gerar assunto não é o meu forte. Ela dá de ombros como se não fosse grande coisa sair por aí matando pessoas. Bem, talvez pra ela não seja.

- Normal.

- O que descobriu?

Ela solta mais um de seus sorrisos e arrasta a cadeira para perto da minha, aproximando o rosto do meu como se fosse me contar um segredo. Ela lambe os lábios e abaixa o tom da voz que estava alto há poucos minutos.

- Você sabe, Ômega, que eu só reporto informações à Idris. – ela pega a bebida e vira de novo, sem tirar os olhos de mim.

Algo me diz que Alfa não faz nada sem um propósito. Mesmo que eu a conheça há poucas semanas, pude analisar que ela não dá um passo fora da curva. Tudo é calculado com muita destreza. Ela põe uma mão na minha coxa e a atitude me puxa de volta à realidade. Nunca estivemos tão próximos.

- Você dança? – os olhos, neste instante, estão com um ar de inocência, mas eu sei que até isso é estudado.

- Não. – eu digo.

- Que tal me conceder a honra?

- Eu disse que não.

Ela dá de ombros mais uma vez, pede outra dose de absinto, bebe e levanta da cadeira. Não parece chateada.

- Você quem manda, chefe. – a última palavra sai como uma ironia e ela parte pro meio das pessoas. Eu a perco de vista. Alguma coisa me diz que eu preciso agir.

- Que se foda. – viro o resto da bebida, levanto e vou atrás dela. Eu a encontro dançando no ritmo da música, como tantos outros. Os olhos estão fechados e acho que está um pouco bêbada, submersa em pensamentos. A pele levemente prateada brilha sob as luzes fracas da boate. Alfa é linda. Afasto com o olhar qualquer pessoa que tenta se aproximar e depois me pergunto o motivo. Ela abre os olhos uns dois minutos depois quando sente minha presença. Sorri maliciosa.

- Achei que não dançasse.

- Mudei de ideia.

Ela não fala nada, mas me puxa para perto por um dos botões de minha camisa. Alfa nunca havia demonstrado tal comportamento na minha presença. Nunca consegui decifrar o que se passa em sua cabeça desde que nos conhecemos. Tal como uma caixa de surpresas, não sei o que posso esperar. Dançamos umas duas músicas até ela indicar a saída da boate com a cabeça. Ela me dá as costas e sai. Olho pros lados, averiguando se alguém percebeu e sigo-a entre o turbilhão de pessoas. Quando consigo sair, sinto o frio da noite atingir meu rosto. Se não fossem por alguns bêbados caídos no meio-fio da calçada, a avenida de prédios extremamente altos e antigos estaria praticamente vazia. Vejo Alfa virando a rua e eu caminho atrás dela, sempre atento a qualquer imprevisto que possa surgir do nada. Quando viro a esquina, ela me espera num corredor sem saída. A perna está apoiada no muro. Ela sorri, estreitando os olhos. Eu me aproximo.

- Achei que quisesse dançar. – minha voz sai mais grave do que já é. Estou de frente para ela. Há poucos centímetros entre nós.

Ela não responde. Alfa se desencosta da parede e, de repente, sou eu quem está no lugar em que estava antes. Ela encosta o corpo no meu e fica na ponta dos pés. Ela me beija. Abre minha boca com os lábios e procura minha língua com a sua. E, de repente, estou envolvendo-a pela cintura, trazendo-a para mais perto com tanto anseio que acho que posso quebrá-la. Estou surpreendido, mas eufórico. As batidas do meu coração pulsam nos meus ouvidos. Ela morde meu lábio inferior e o puxa. O corpo pressiona cada vez mais o meu contra o muro. Ela explora o que pode tocar. Fecho os olhos de prazer enquanto as mãos passeiam por áreas sensíveis. Se continuar assim, não vou poder tratá-la com tanto cavalheirismo como tenho feito nos últimos tempos. Abro os olhos e viro-a de frente pro muro. Ela apoia as mãos na parede de tijolos. Afasto o cabelo liso das costas e beijo o pescoço delicado, passando a ponta da língua pela nuca. Ela fica arrepiada. Meus braços a puxam pra mais perto. Afago seus seios e a cintura fina que me permite chegar a locais que desejo. Ela consente que uma de minhas mãos entre por sua calça. Eu a toco e ela solta um pequeno gemido. Ouvi-la assim me deixa mais excitado. Eu a quero. Não sabia que a desejava tanto até este momento. Viro-a para mim e a beijo. Alfa está faminta e eu também. Ela impulsiona o corpo e cruza as pernas na minha cintura. O único apoio que temos é a parede. Ela me olha e, apesar disso, a única coisa que posso ver nas íris negras é lascívia. Ela passa os dedos pelo meu cabelo.

- Estou com muita vontade de você. – sussurra.

- Então vamos sair daqui. – coloca-a de pé e seguro uma de suas mãos. Estou nos conduzindo para fora do corredor sem saída, mas antes olho de um lado pro outro da rua, certificando-me de que ninguém nos seguiu. Tudo certo – é o que acho. Observo Alfa novamente antes de partirmos. Ela entrelaça os dedos nos meus e isto é um consentimento para irmos adiante.

A noite nos aguarda.

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NOTA

Você pode ler mais sobre este universo em:

> Mamba Negra

> Morte

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

COMO MATEI MEU CHEFE

Escute enquanto lê :)

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        Não se brinca com uma pessoa que anda por aí com armas afiadas, principalmente se ela sabe como manejar minuciosamente esses tipos de objeto – afinal de contas, estamos falando dos meus instrumentos de trabalho.

Meu nome é Zaya. Apenas. O ano é 2060 e eu matei meu chefe. É, você não leu errado. Eu realmente matei e as vozes da minha cabeça estão rindo de satisfação (e ao mesmo tempo desespero), porque deve ser algo que muita gente quer fazer, mas não tem coragem.

            Nasci em 2030 e o planeta já era complicado o suficiente, de acordo com a minha mãe. A tecnologia despontava como uma promessa pra muitos, enquanto outros se afogavam no mar da sociedade capitalista. Os meus primeiros dez anos foram complicados – o mundo ficou ainda mais pesado pra quem não tinha dinheiro. Era o caso da minha pequena família. Eu não culpo a minha mãe. Ela precisou me vender a um mercenário (este não tinha o trabalho à vista naquele tempo) em troca de grana.

            Aos onze segurei a minha primeira lâmina: uma kukri. É o tipo de arma que a gente começa a usar quando quer se aprofundar nesse meio, ao menos no meu caso. A faca é curvada quase da base à ponta, projetada pra cortar e apunhalar de uma forma que torture a vítima. A karambit era a minha segunda parceira e quase uma irmã perdida da primeira: lâmina curva com um anel na extremidade do cabo.

Mas, de fato, comecei o meu trabalho aos quinze e, na época, a maioria das pessoas não tinha mais nenhum vínculo trabalhista que pudessem agarrar. Eu precisava de um ponto de apoio pra sobreviver. Eu não tinha saída. A cada ano trabalhei firmemente com um único propósito: sair desta vida. É um paradoxo, eu sei.

Observo o horizonte que acorda à minha frente e trago o cigarro. Me engasgo com a fumaça acinzentada. Não costumo fumar, mas achei que cairia bem. Sempre me imaginei neste dia. Solto o cigarro que quase não foi consumido e apago o resto da chama laranja com a ponta do All Star surrado.

            Inspiro, sentindo o cheiro da grama e do orvalho da manhã que apenas começou. Fecho os olhos e a memória volta à noite passada.

                                                                       *

            22h.

            - Zaya! – a voz é inconfudível. Saori corre até onde estou e me abraça pela cintura, enterrando o rosto no meu ombro. Ela tem dezoito anos. Eu, trinta. – Por favor, não faça isso.

            Saori também tinha apenas dez anos quando chegou. Os olhos puxados, sem as linhas das pálpebras, são de um verde quase cristalino. O cabelo curto e preto, na altura da nuca, está embaraçado. Afasto-a de mim e arrumo sua franja.

            - Eu preciso. Por nós. – coloco as mãos sobre os ombros musculosos da menina. – A gente se vê por aí, Saori.

            Ela faz uma careta como se fosse chorar, mas engole as lágrimas e muda de expressão, determinada. Essa conversa foi repetida inúmeras vezes, mas hoje é diferente. Eu parto em busca do que quero quando decido.

            - Então trate de não deixar nada pra trás. – ela aperta a minha mão, saca a pistola Taurus e corre.

            Talvez ela morra.

            Talvez eu morra.

            Espero que não.

            Eu suspiro e começo a caminhar na direção oposta a que ela se foi. O corredor é extenso, de concreto acinzentado. Algumas portas dão para lugares inimagináveis que você não gostaria de saber. O local não tem saída no caminho que percorro, porque a porta da ponta é a sala onde meu Chefe se encontra. Ando mais alguns metros e bato na madeira amarronzada com os três toques característicos do meu acesso. Do outro lado escuto a autorização.

            Entro e fecho a porta. Por incrível que pareça, o ambiente é bem iluminado com sofás confortáveis de couro em forma de L e estantes que contêm inúmeras bebidas. No centro da sala, ele está sentado à mesa. O Chefe levanta o olhar sob os óculos de grau de armação fina e dourada e continua a escrever seja lá o que for.

            - A que devo a honra, Zaya? – a voz é grave, porém calma.

            - Vim te matar. – eu digo, sem hesitar.

            Ele ri. Aquele riso debochado de incredulidade no fundo da garganta.

            - Ora, achei que este dia não chegaria tão cedo. Me enganei. – ele descansa a caneta sobre a mesa e tira os óculos. Passa as mãos nos cabelos oleosos e ondulados, sereno. O nariz é curvilíneo com ar de altivez. A pele morena tem rugas e manchas por causa da idade avançada. Setenta anos nas costas, mas ainda mantém o corpo saudável e esguio. Ele levanta da cadeira. Os olhos, antes castanhos, parecem conter uma névoa. – Engraçado, menina, como nos enganamos com as pessoas. Eu te acolhi, e é assim que você me retribui? – ele estende as mãos, mas o sorriso continua a desenhar os lábios finos.

            - Você mesmo me ensinou a não ter misericórdia. Por que eu teria neste momento? – eu falo de menos e prezo pela prática. Não espero que responda e saco duas karambits dos bolsos da jaqueta. Corro até onde ele está e pulo na mesa.

            Quando penso em cortar seu pescoço, ele some. Claro que sim! O Chefe sempre esperou por isso: que o matassem. Olho às minhas costas e ele está lá. O olhar nebuloso está incediado pelo prazer da adrenalina. Ele agarra a gola da minha jaqueta e me puxa pro chão. Minha coluna vai de encontro ao mármore sem piedade e eu fico sem fôlego. Tudo acontece muito rápido quando ele tenta afundar meu tórax com a perna direita, mas consigo rolar pro lado bem na hora. O Chefe não precisa usar armas pra matar, porque ele sabe infinitas formas apenas com o corpo.

            Consigo me colocar de joelhos, zonza. Merda. Vinte anos fazendo a mesma coisa e estou falhando. Falhando... Falhando... Ele segura meu cabelo curto e puxa minha cabeça pra trás. O hálito no meu ouvido cheira a uísque.

            - Tsc, esperava mais de você, Zaya. Tão prestativa nas tarefas... Tão compenetrada e sempre dando o melhor no trabalho. O que mudou, hein? – ele passa a mão direita pelo meu pescoço, numa carícia, mas eu só sinto repulsa. – Posso esquecer que isso aconteceu e te propor algo melhor, hm?

            Reúno o máximo de força que consigo e jogo meus cotovelos pra trás, atingindo-o no abdômen. Ele cai sentado e tosse alto. É tudo ou nada. Ponho-me de pé e chuto sua mandíbula com força. Ouço o som de algo se rompendo e tenho certeza de que foram os ossos de seu rosto. Ele tem setenta anos. Eu tenho trinta. Ele é um idoso. Ele é um homem. Eu sou uma vítima. Eu era uma criança. Tornei-me uma assassina.

            Quando o olho mais uma vez, o queixo está num ângulo estranho, torto. Ele se contorce de dor. Piso com força no seu tórax e sinto algumas costelas se quebrarem sob meu pé esquerdo. O Chefe grita. A sala tem isolamento acústico – me dá vontade de rir só de pensar. Aproveito e quebro os seus braços com mais pisadas. Acredito que não há chances de fugir.

            Sento-me sobre seu corpo e observo a agonia transbordar de um ser que já não é mais tão capaz de cometer atrocidades. Ele não consegue formular frases por causa da mandíbula quebrada, mas tenta, em vão, me segurar com braços inúteis.

            - Você acha mesmo que eu, cria do Chefe, seria tão fraca assim? Você me ensinou bem. Bem até demais. – saco dois canivetes butterfly da parte de trás da minha calça. As outras facas caíram longe quando ele me derrubou no chão.

            Ele arregala os olhos porque sabe o que vem por aí. Desço os canivetes em seus globos oculares com o máximo de rapidez que eu consigo. O sangue esguicha nas minhas mãos e ele solta um urro animalesco. Ele se debate, tentando levar as mãos ao rosto, mas como? Eu poderia deixá-lo viver cego e com braços que jamais serão curados, mas seria misericordioso demais. Puxo os canivetes e estou pronta pro golpe final.

            - Vai pro inferno. – eu digo e apunhalo as jugulares de seu pescoço sem titubear por um segundo.

            O sangue jorra em abundância e ele se afoga no próprio mar vermelho, em convulsão, até o corpo parar de se debater e ficar estático. Eu me levanto, olho o corpo do homem que um dia foi o meu Chefe. Cuspo. Nenhuma lágrima escorre de mim.

Só me resta efetuar o plano de sair desta sala.

                                                                       *

            Abro os olhos e observo os hematomas nas minhas mãos – resquícios de como consegui concluir minha tarefa. Saori ficou pra trás. Não consegui encontrá-la apesar da procura. Talvez ela tenha fugido.

            Respiro um novo ar, mas sei que não estou completamente livre por causa do que deixei. Pego o capacete preto do retrovisor da moto e subo na minha Yamaha YZF-R3 bordô. Olho o horizonte mais uma vez e rio. Gargalho. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, não sei se por causa da risada ou pelo que estou renunciando. Mas quem pode me dizer? Coloco o capacete e fecho a trava. Dou partida na moto e o ronco do motor me traz à realidade de o que fica no passado, permanece no passado.

            O futuro é incerto, mas busco pela plenitude do agora.

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NOTA

        Eu gostaria de te contar, meu caro leitor, que foi muito difícil chegar até aqui sem inseguranças, quedas e surtos, mas eu consegui. Eu não escrevia algo meu (de verdade) há pouco mais de um ano. Tive um grande bloqueio criativo; algo se partiu dentro da minha mente, porém tenho juntado os caquinhos aos poucos. Cheguei a achar que não contaria histórias por muito tempo - terapia e meses de reflexão foram necessários. Quem sabe um dia eu te conte sobre, quando as cicatrizes estiverem fechadas. O caminho e o processo são longos, mas um dia a gente chega lá.

        A história acima é nova. Estou muito orgulhosa de mim.

           

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Colapso Mental

    Estranho como as coisas acontecem – estranho mais ainda é o propósito delas. Eu tinha 15 anos quando me perdi na minha mente e fiquei por lá. Certo dia, entrei no ateliê do meu pai quando ele me retratava numa de suas pinturas. Aproximei-me cautelosamente de onde ele se encontrava e pus uma de minhas mãos em seu ombro. Papai me olhou.

    - O que acha? – ele me perguntou. Seus olhos sorriam, mas seus lábios não.

    - Eu gosto.

  - Sabe, uma pintura reflete a essência de algo. Estou refletindo, através dos meus traços, a sua essência mesclada à minha.

   - Pai, você sabe que não sou boa com arte, então por que me pintou desenhando um quadro? – de fato, o quadro era um desenho meu desenhando outro quadro no ateliê do meu pai. Mesmo de costas (meu corpo na pintura), eu sabia que se tratava de mim.

   - Minha querida, você pode não ser boa com arte, mas a sua réplica é, porque eu quis. Algumas coisas são assim: você as determina da forma que você quer.

   - Acho que você tem passado muito tempo trancado aqui. - afago seu ombro.

    - E eu acho que é você quem está vivendo numa jaula. – ele lavou as mãos numa bacia de água suja de tinta. – Olha, vou tomar um café. Tem como você trocar essa água?

    Assenti, porque era o mínimo que eu podia fazer. Ele sorriu e foi embora, deixando-me sozinha. Fiquei curiosa quanto à pintura e aproximei-me dela, observando seus traços e a sutileza das linhas, mas havia algo de estranho ali, porque era como se ela estivesse viva. Toquei a tela e foi como tocar a superfície da água – minha mão começou a afundar para logo depois meu braço ir junto. Por mais que eu tentasse puxar meu corpo pra trás, eu não obtive resultados satisfatórios, pois, logo em seguida, eu estava dentro do meu quadro. Um calafrio me desceu pela espinha e olhei pra trás, mas me vi no mesmo lugar de antes – só havia uma coisa de diferente: minha réplica.

    - Pensei que você não viesse mais.

    - Eu? Mas você... Você é só uma pintura.

    Ela finalmente se virou e foi como tomar um choque. Cada detalhe do seu corpo era exatamente como o meu. Ela sorriu.

    - Eu pareço uma pintura? Você viu somente o exterior, mas agora está me vendo de verdade.

    - Acho que estou sonhando.

   - Sonhos são portas para outros mundos existentes. – ela segurou minha mão. – Vamos dar um passeio.

  E eu não sei o que diabos aconteceu, porque, de repente, nos encontrávamos dentro do quadro que ela/eu estava pintando. No meio de um campo de rosas vermelhas, sentimos uma leve brisa tocar o nosso rosto.

   - Tudo depende da forma como você vê as coisas. Eu existo, você existe. Quem pode dizer o contrário? Seu pai pintou um quadro no qual eu estou, mas como alguém pode garantir que eu nunca existi? Que eu não sou fruto de uma realidade paralela da mente dele? Ou que ele é fruto da minha mente? – ela se inclinou para colher uma flor e cheirou a mesma. – Flores irão surgir.

    - Quem sou eu? – perguntei quase num sussurro.

    - Essa é a grande questão, mas não se preocupe, porque há muitas de você formando um único ser. Você não precisa buscar por apenas uma razão existencial.

    - E você? Quem é?

   - Uma de suas razões existenciais. E você é uma das minhas. Agora, acho que você já teve o suficiente pra começar a enxergar melhor as coisas. E lembre-se: você deve andar pelos seus próprios caminhos. São muitos. – ela levou as mãos aos meus olhos para que eu não enxergasse nada e quando as tirou dali, eu havia voltado ao ateliê do meu pai.

    Olhei ao redor e me afastei do quadro. Nada. Só podia ter sido um sonho, porque lá estava eu na pintura como se eu nunca tivesse falado comigo mesma.

    - Escuta, eu esqueci minha carteira e...

    - Pai, quanto tempo se passou desde que você saiu?

    - Creio que uns 5 minutos, por quê?

    - Acho que estou ficando louca.

    Ele sorriu.

    - E não seria a loucura a coisa mais racional deste mundo?

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NOTA

    Apesar desta história ter sido escrita em 2014, ainda tenho o mesmo pensamento de que vivemos em mundos paralelos e que existem muitos de nós mesmos. Por que não existiria? Por que seríamos egoístas ao ponto de acharmos que somos os únicos num universo infinito? 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

MORTE (Uma história de Alfa e Ômega)

    Visto uma camisa com as mangas cortadas que há muito foi um moletom. O capuz ainda está no mesmo lugar. A bermuda folgada, um pouco acima dos joelhos, também é do mesmo tecido. Sabe como é... Não é como se eu fosse receber alguém agora e precisasse me arrumar. Amarro meu cabelo num rabo de cavalo no alto da cabeça e resolvo dormir. Decido que estou muito cansada pra continuar refletindo sobre o dia. Me jogo na cama grande e deixo as katanas ao meu lado. As outras armas estão por perto, ao alcance. Por precaução, guardo uma adaga debaixo do travesseiro também. Não sei em quanto tempo caio no sono, mas acho que é bem rápido, porque logo meu corpo fica pesado. Pesado como nunca foi.

    Há algo estranho.

    Abro meus olhos. Não tenho certeza por quanto tempo dormi, mas sei que foi o suficiente pra alguém invadir o quarto de mansinho e me atacar. Como não escutei esse estranho encapuzado entrando? Ele usa uma longa capa preta e uma máscara que cobre a boca e o nariz. Percebo, através dos seus olhos, que está sorrindo de satisfação. Ele prende meus pulsos à cama com as mãos. Seu corpo é um grande peso sobre o meu.

    Notas mentais: 1) não confiar nas fechaduras desta casa, mesmo que eu tranque as portas à chave; 2) o cara é burro o bastante pra não notar as espadas que estão ao lado. Ele poderia ter me matado de forma rápida e quase indolor (sorte a minha); 3) pessoas desesperadas tendem a não planejar seus atos.

    Felizmente, é provável que ele não saiba que fui treinada pra que qualquer coisa ao meu alcance se torne fatal. Mas, no momento, o único utensílio acessível por aqui é o meu corpo. Por isso golpeio seu nariz com a cabeça, usando o máximo de força. Escuto a cartilagem estalar. Ele me liberta subitamente e leva as mãos ao rosto num reflexo. Estou livre. Soco seu abdômen, derrubando-o da cama. Ainda não estou disposta a usar as espadas. Gosto de brincar. Pulo da cama e fico em posição de ataque.

   - Quem te mandou? – pergunto, enquanto o observo se levantar com uma das mãos no rosto. Os olhos negros faíscam de fúria.

    - Você sabia que existe uma recompensa pela sua cabeça, Anjo? – a voz é grave, mas vacila por causa da dor.

    Dou de ombros sem estranhar a novidade. Ele avança e tenta me acertar com um dos punhos. Eu me esquivo e acerto mais uma vez seu abdômen, porém, desta vez, com um gancho. Sou pequena, mas sempre usei minha estatura ao meu favor. Basta saber como. Apesar de alto e forte, ele é lento. Muitos músculos são inúteis se você não sabe como utilizá-los. Ele recua uns dois passos – é o suficiente pra eu tomar impulso e dar uma cotovelada no alto de sua cabeça. Ele fica desnorteado e bate na espécie de abajur próximo à janela, espatifando-o. Provavelmente estamos acordando a mansão neste instante.

    Mesmo assim, ele não cai. Quando vou atacá-lo novamente, ele segura meu punho e com a outra mão fechada soca meu rosto uma, duas, três vezes até minha boca rachar e eu sentir o sabor característico de sangue na língua. Em seguida, aperta meu pescoço com ambas as mãos e me levanta. Estrelas rondam a minha cabeça e tento não apagar. É difícil respirar. Preciso agir – e rápido. Cravo minhas unhas nas luvas de couro que usa, mas é inútil. Num lapso de instinto, como o Krav Maga também me ensinou, enfio os polegares em seus olhos, afundando-os. Ele grita em agonia e me solta no chão. Estou de joelhos, recuperando o ar. O capuz do homem cai pra trás e revela uma cabeça careca. Ele ainda grita, debatendo-se contra os móveis.

    Levanto-me e caminho devagar até a cama. Pego minha adaga de bronze que estava guardada debaixo do travesseiro. Vou até onde ele está. Chuto um dos seus joelhos e o homem cai com as mãos espalmadas, olhando pro nada. Onde antes existiam dois globos oculares, agora apenas massas estranhas e ensanguentadas ocupam os lugares. Ele ainda geme alto. Afundo minha adaga no seu ombro e giro. Ele grita. Eu sorrio satisfeita.

    - Quem te mandou? – pergunto mais uma vez. – Me diga e eu poupo sua vidinha de merda. – claro, estou blefando.

    Ele dá uma risada entrecortada.

    - Nunca, sua putinha. A Águia vive!

    - Tudo bem, então. – suspiro, cansada, e toco o alto de sua cabeça. – Pela Ordem que me criou, espero que o inferno julgue os seus pecados. – dizendo isso, retiro a adaga do ombro ferido e cravo-a fundo em sua garganta. Puxo-a de volta.

    O homem leva a mão ao pescoço, mas rapidamente se afoga no próprio sangue que escorre em abundância pelo corte. Ele cai no chão do quarto de cara, com um baque. Poucos segundos depois, um grupo de guardas invade o cômodo (convenhamos, muito inútil agora). Eles ficam atônitos com a visão. Um Ômega vestido de calça de moletom e regata entra logo após. Nesta noite, usa um coque despenteado no alto da cabeça. Droga, como ainda consegue ser tão bonito?

    - O que diabos está acontecendo aqui?! – ele me olha e depois observa o corpo no chão. – O que...?

  - Parece que a mansão não é tão segura assim, afinal. – despreocupada, limpo a lâmina da adaga na barra da minha blusa.

    - Senhor? – chama um dos guardas que está ao lado do corpo.

   - O que houve? – Ômega passa por mim e vê o que o guarda vê. Ele me olha com uma expressão espantada.

   Me aproximo deles e olho o corpo. Sem máscara, o homem tem uma longa cicatriz da orelha esquerda à boca, quase repartindo o rosto na diagonal. A face me é familiar.

    - Você matou o Capitão... – Ômega ainda me olha incrédulo. – O Capitão da nossa guarda.

    Olho pra ele de volta com uma pergunta no pensamento: bem... eu deveria me preocupar com essa informação?

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

REFLEXO DE UM SONHO

    Vejo-me atravessar um corredor coberto por plantas. Como vim parar aqui? Eu não sei, mas tenho que chegar à vila o mais rápido possível. Vai escurecer dentro de pouco tempo. Atravesso um terreno de pedras com algumas rachaduras. Faço o máximo para não cair, porque sei que existe um fundo sem fim debaixo dos meus pés – já estive por aqui. Consigo passar, mas estou tenso depois de tanto esforço. Suor brota da minha testa. Volto à caminhada exaustiva, mas agora está mais perto.

    Chego à vila quando não há mais nenhum resquício do sol. Está escuro – a noite tem uma cor azulada. Estranho… Não há luzes acesas nas casas. Tudo está deserto. Ando um pouco mais e percebo uma das casas com as portas abertas. À primeira vista parece estar abandonada, mas consigo visualizar a pequena chama de uma vela. Aproximo-me. Talvez eu possa pedir ajuda e perguntar por que diabos tudo foi deixado para trás.

    - Olá…? - eu digo meio que perguntando. Meus pés estão no batente da entrada. Como esperado, não há resposta.

     Eu não noto quando ela aparece. Tenho um susto. Seus olhos são pequenos e puxados. O cabelo é preto e escorre pelas costas. É uma criança. Uma menina. Ela tem traços asiáticos e cerca de 10 anos. Ela me olha atentamente e um calafrio sobe por minha espinha. Tento perguntar algo, mas estou sem voz. Passo pela criança, a fim de explorar a casa. Não se entra em locais abandonados e escuros. Não sei o que há comigo. Observo as paredes brancas na penumbra. É quando vejo o casal e mais outra criança – esta é pequena, quase 6 anos. Estão deitados numa cama, olhando para o vazio. Algo não está certo. Tento dar um passo para trás, mas é aí que o pesadelo começa.

     Tudo se fecha ao meu redor e sou engolido pela escuridão. Minha cabeça dói, dói, dói. Eu corro. Eles me perseguem. Eles me machucam. Agridem meu corpo. Agridem mais. Meus braços ardem. Dou de cara com os quatro. Nitidamente, eles fazem parte da mesma família. Eles têm os mesmos olhos, mas os rostos, que já foram bonitos um dia, estão em frangalhos. Eu quero gritar. A cena de um acidente de carro penetra a minha mente. Eu vejo os quatro. Mortos. Eles me fazem ver o que eu não quero. É um grande terror psicológico. Tenho a sensação de que meu crânio está se partindo. Eu corro mais uma vez, mas não há saída. Morrer é uma certeza. Corro de uma ponta à outra da casa. Eu me sinto num looping. As cenas se repetem diversas vezes. Eu quero sair daqui.

     E, de alguma forma, eu saio. Abro meus olhos no escuro. Voltei à estrada da vila, para o mesmo instante em que cheguei. Estou confuso. Engulo em seco. Vejo uma porta entreaberta e há luz elétrica. Empurro com cuidado e vejo um casal. Eles me olham com as sobrancelhas erguidas. Graças a Deus estão vivos!

    - Eles estão me perseguindo! - falo alto.

    - Quem? - a mulher me pergunta.

    - Os mortos da casa ao lado!

    O homem olha para a mulher.

   - Eu te disse! Foi eles que fizeram isso comigo! - ele aponta pro próprio rosto e eu noto que há machucados. Estendo meu antebraço e me assusto. Também estou machucado. Olho pro casal de novo.

    - É como se eu tivesse vivido 10 dias em 1!

    - Nós precisamos acabar com eles... - o homem diz.

    Não sei como vamos fazer isso, mas eu assinto. Nos levantamos ao mesmo tempo. Quando abrimos a porta, nós três damos de cara com o homem morto. O pesadelo recomeça. Eu rezo, mas de nada adianta. Palavras giram em torno do meu corpo e eu escuto:

    - Elimine as impurezas… Orgulho, raiva… - o morto arranca essas palavras de mim.

    Estou em agonia. Estou girando.

    E eu acordo.

    Penso que são 5h da manhã. Pego o celular.

    6H28.

    Acordei dois minutos antes do despertador tocar.

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NOTA

    O texto acima foi escrito em 2017, baseado num pesadelo no qual eu era um rapaz. Lembro-me de que naquela época eu estava passando por estresses absurdos por estar escrevendo meu trabalho de conclusão de curso em diferentes horários. Uma pressão muito grande. Tive diversas experiências espirituais (ao menos é o que acho).

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

MAMBA NEGRA (Uma história de Alfa e Ômega)

           Se as pessoas soubessem que eu moro praticamente em outra civilização, não me chamariam para trabalhos tão distantes. O que me conforta é saber que o dinheiro vale todo o esforço, mesmo que, atualmente, eu viva a centenas de quilômetros daqui. Hoje em dia, meu bem, tudo pelo dinheiro.

Certo, concordemos, sempre foi assim.

Há dois guardas na entrada do casarão de cinco andares. O lugar parece antigo, quase arcaico, numa arquitetura gótica de outros tempos. Talvez seja de uma época há muito passada, como uma herança, mas, apesar disso, é bem conservado com suas paredes acinzentadas e janelas vitorianas. Os guardas me deixam passar como se já soubessem quem eu sou. Apenas assentem levemente – quase não dá pra perceber. As portas abrem e dou de cara com um grande salão de mármore preto. É frio. Seguro um arrepio que sobe pela espinha ao ser atingida por uma corrente de ar. A pessoa que mora aqui deve ser rica pra caralho, provavelmente a dona da cidade (mas tem um gosto duvidoso para decoração). Dentro, há guardas por toda parte: alguns com metralhadoras, outros com lanças e até bestas. Se eu vacilar, posso morrer rapidamente. Porém, ao que me parece, eles não pretendem me atacar, já que não me olham, mas sei que estou sendo observada.

- Estávamos à sua espera, querida. – uma mulher sentada num trono de prata me cumprimenta com um sorriso simpático. Um trono? Fala sério. – Espero que tenha sido bem recepcionada.

Dou de ombros e enfio as mãos nos bolsos do meu sobretudo militar, observando com o canto dos olhos o ambiente que não é nada acolhedor. Além do trono de prata, não existem outros móveis.

- Eu não esperava alguém como você. – ela me olha com interesse.

- O que esperava então? – levanto uma sobrancelha e tiro meus óculos escuros, deixando que a armação penda nas cordinhas de segurança.

- Alguém mais velha, talvez. Quantos anos você tem, criança? – ela se inclina pra frente e descansa o queixo sobre uma das mãos.

- Isso importa na conjuntura social e política em que vivemos hoje, senhora? – ironizo.

- Não, definitivamente não. – ela sorri mais uma vez e se recosta no trono, enquanto cruza as pernas. – Meu nome é Idris. – diz a mulher. Ela provavelmente está na casa dos 50 anos, mas esbanja jovialidade. Possui lábios carnudos, pele bronzeada e mandíbula quadrada; usa um vestido verde musgo com uma fenda numa das coxas bem torneadas. Uma trança dourada cai sobre seu ombro direito.

- Vejo que veio bem armada. – percebo um cara de pé ao lado do trono de Idris. Alguém que eu não havia prestado atenção. Estava tão parado feito os guardas que achei que fosse um. – Espadachim, hum? – ele indica minhas duas katanas que estão guardadas em bainhas nas minhas costas.

Ele é estranho. Não um estranho daqueles esquisitos. Apenas estranho de uma forma peculiar. Veste terno vermelho com uma camisa de gola rolê da mesma cor por dentro. Os sapatos sociais pretos combinam com a cobra mamba negra em torno do pescoço. Viva. O cabelo ondulado preto está jogado de lado, destacando o mesmo queixo quadrado de Idris – provavelmente mãe e filho, deduzo. Ele vem ao meu encontro e, de perto, noto que possui olhos amarelos. A cobra sibila quando sente meu cheiro. Ele faz um carinho nela, acalmando-a. A cobra se aquieta. Ele é alto, cerca de um e oitenta e cinco de altura. Ele usa uma argola dourada em cada orelha. Parece um cigano, é bonito e, claro, preciso fazer uma nota mental: perigoso barra tomar cuidado.

- O que vocês querem de mim? – olho pra ele, depois Idris.

- Morte. – ele me observa de cima, de uma maneira quase arrogante.

- Ora, não me diga. Vocês só não podiam me contratar pra lavar os banheiros, certo?

Mas ninguém ri. O homem à minha frente apenas me encara.

- Tudo bem. – levanto minhas mãos. – Qual é o plano?

- Vamos entrar nos detalhes mais tarde, senhorita. – ele puxa um tipo de pendrive do bolso da calça e aperta. De repente um holograma de um senhor aparece ao nosso lado. – Afonso, acompanhe-a até um dos aposentos, por favor. – a espécie de mordomo faz uma reverência. Ele me entrega o pendrive que, na verdade, não passa apenas de um botão retangular. – Chamarei-a quando estiver bem instalada. Aproveite a estadia, senhorita...? – ele não sorri, mas parece mais simpático (daquele jeito dos ricos quando querem se equiparar à classe social inferior).

- Alfa. – eu respondo.

É quando ele sorri com o canto da boca.

- Meu nome é Ômega.

SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...