Estranho como as coisas acontecem – estranho mais ainda é o propósito delas. Eu tinha 15 anos quando me perdi na minha mente e fiquei por lá. Certo dia, entrei no ateliê do meu pai quando ele me retratava numa de suas pinturas. Aproximei-me cautelosamente de onde ele se encontrava e pus uma de minhas mãos em seu ombro. Papai me olhou.
- O que
acha? – ele me perguntou. Seus olhos sorriam, mas seus lábios não.
- Eu
gosto.
- Sabe,
uma pintura reflete a essência de algo. Estou refletindo, através dos meus
traços, a sua essência mesclada à minha.
- Pai,
você sabe que não sou boa com arte, então por que me pintou desenhando um
quadro? – de fato, o quadro era um desenho meu desenhando outro quadro no
ateliê do meu pai. Mesmo de costas (meu corpo na pintura), eu sabia que se
tratava de mim.
- Minha
querida, você pode não ser boa com arte, mas a sua réplica é, porque eu quis.
Algumas coisas são assim: você as determina da forma que você quer.
- Acho
que você tem passado muito tempo trancado aqui. - afago seu ombro.
- E eu
acho que é você quem está vivendo numa jaula. – ele lavou as mãos numa bacia de
água suja de tinta. – Olha, vou tomar um café. Tem como você trocar essa água?
Assenti,
porque era o mínimo que eu podia fazer. Ele sorriu e foi embora, deixando-me
sozinha. Fiquei curiosa quanto à pintura e aproximei-me dela, observando seus
traços e a sutileza das linhas, mas havia algo de estranho ali, porque era como se
ela estivesse viva. Toquei a tela e foi como tocar a superfície da água – minha
mão começou a afundar para logo depois meu braço ir junto. Por mais que eu
tentasse puxar meu corpo pra trás, eu não obtive resultados satisfatórios,
pois, logo em seguida, eu estava dentro do meu quadro. Um calafrio me desceu
pela espinha e olhei pra trás, mas me vi no mesmo lugar de antes – só havia uma
coisa de diferente: minha réplica.
- Pensei
que você não viesse mais.
- Eu? Mas
você... Você é só uma pintura.
Ela
finalmente se virou e foi como tomar um choque. Cada detalhe do seu corpo era
exatamente como o meu. Ela sorriu.
- Eu
pareço uma pintura? Você viu somente o exterior, mas agora está me vendo de
verdade.
- Acho
que estou sonhando.
- Sonhos
são portas para outros mundos existentes. – ela segurou minha mão. – Vamos dar
um passeio.
E eu não
sei o que diabos aconteceu, porque, de repente, nos encontrávamos dentro do
quadro que ela/eu estava pintando. No meio de um campo de rosas vermelhas,
sentimos uma leve brisa tocar o nosso rosto.
- Tudo
depende da forma como você vê as coisas. Eu existo, você existe. Quem pode dizer
o contrário? Seu pai pintou um quadro no qual eu estou, mas como alguém pode
garantir que eu nunca existi? Que eu não sou fruto de uma realidade paralela da
mente dele? Ou que ele é fruto da minha mente? – ela se inclinou para colher
uma flor e cheirou a mesma. – Flores irão surgir.
- Quem
sou eu? – perguntei quase num sussurro.
- Essa é
a grande questão, mas não se preocupe, porque há muitas de você formando um
único ser. Você não precisa buscar por apenas uma razão existencial.
- E você?
Quem é?
- Uma de
suas razões existenciais. E você é uma das minhas. Agora, acho que você já teve
o suficiente pra começar a enxergar melhor as coisas. E lembre-se: você deve
andar pelos seus próprios caminhos. São muitos. – ela levou as mãos aos meus
olhos para que eu não enxergasse nada e quando as tirou dali, eu havia voltado
ao ateliê do meu pai.
Olhei ao
redor e me afastei do quadro. Nada. Só podia ter sido um sonho, porque lá
estava eu na pintura como se eu nunca tivesse falado comigo mesma.
- Escuta,
eu esqueci minha carteira e...
- Pai,
quanto tempo se passou desde que você saiu?
- Creio
que uns 5 minutos, por quê?
- Acho
que estou ficando louca.
Ele
sorriu.
- E não
seria a loucura a coisa mais racional deste mundo?
Apesar desta história ter sido escrita em 2014, ainda tenho o mesmo pensamento de que vivemos em mundos paralelos e que existem muitos de nós mesmos. Por que não existiria? Por que seríamos egoístas ao ponto de acharmos que somos os únicos num universo infinito?
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