quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Colapso Mental

    Estranho como as coisas acontecem – estranho mais ainda é o propósito delas. Eu tinha 15 anos quando me perdi na minha mente e fiquei por lá. Certo dia, entrei no ateliê do meu pai quando ele me retratava numa de suas pinturas. Aproximei-me cautelosamente de onde ele se encontrava e pus uma de minhas mãos em seu ombro. Papai me olhou.

    - O que acha? – ele me perguntou. Seus olhos sorriam, mas seus lábios não.

    - Eu gosto.

  - Sabe, uma pintura reflete a essência de algo. Estou refletindo, através dos meus traços, a sua essência mesclada à minha.

   - Pai, você sabe que não sou boa com arte, então por que me pintou desenhando um quadro? – de fato, o quadro era um desenho meu desenhando outro quadro no ateliê do meu pai. Mesmo de costas (meu corpo na pintura), eu sabia que se tratava de mim.

   - Minha querida, você pode não ser boa com arte, mas a sua réplica é, porque eu quis. Algumas coisas são assim: você as determina da forma que você quer.

   - Acho que você tem passado muito tempo trancado aqui. - afago seu ombro.

    - E eu acho que é você quem está vivendo numa jaula. – ele lavou as mãos numa bacia de água suja de tinta. – Olha, vou tomar um café. Tem como você trocar essa água?

    Assenti, porque era o mínimo que eu podia fazer. Ele sorriu e foi embora, deixando-me sozinha. Fiquei curiosa quanto à pintura e aproximei-me dela, observando seus traços e a sutileza das linhas, mas havia algo de estranho ali, porque era como se ela estivesse viva. Toquei a tela e foi como tocar a superfície da água – minha mão começou a afundar para logo depois meu braço ir junto. Por mais que eu tentasse puxar meu corpo pra trás, eu não obtive resultados satisfatórios, pois, logo em seguida, eu estava dentro do meu quadro. Um calafrio me desceu pela espinha e olhei pra trás, mas me vi no mesmo lugar de antes – só havia uma coisa de diferente: minha réplica.

    - Pensei que você não viesse mais.

    - Eu? Mas você... Você é só uma pintura.

    Ela finalmente se virou e foi como tomar um choque. Cada detalhe do seu corpo era exatamente como o meu. Ela sorriu.

    - Eu pareço uma pintura? Você viu somente o exterior, mas agora está me vendo de verdade.

    - Acho que estou sonhando.

   - Sonhos são portas para outros mundos existentes. – ela segurou minha mão. – Vamos dar um passeio.

  E eu não sei o que diabos aconteceu, porque, de repente, nos encontrávamos dentro do quadro que ela/eu estava pintando. No meio de um campo de rosas vermelhas, sentimos uma leve brisa tocar o nosso rosto.

   - Tudo depende da forma como você vê as coisas. Eu existo, você existe. Quem pode dizer o contrário? Seu pai pintou um quadro no qual eu estou, mas como alguém pode garantir que eu nunca existi? Que eu não sou fruto de uma realidade paralela da mente dele? Ou que ele é fruto da minha mente? – ela se inclinou para colher uma flor e cheirou a mesma. – Flores irão surgir.

    - Quem sou eu? – perguntei quase num sussurro.

    - Essa é a grande questão, mas não se preocupe, porque há muitas de você formando um único ser. Você não precisa buscar por apenas uma razão existencial.

    - E você? Quem é?

   - Uma de suas razões existenciais. E você é uma das minhas. Agora, acho que você já teve o suficiente pra começar a enxergar melhor as coisas. E lembre-se: você deve andar pelos seus próprios caminhos. São muitos. – ela levou as mãos aos meus olhos para que eu não enxergasse nada e quando as tirou dali, eu havia voltado ao ateliê do meu pai.

    Olhei ao redor e me afastei do quadro. Nada. Só podia ter sido um sonho, porque lá estava eu na pintura como se eu nunca tivesse falado comigo mesma.

    - Escuta, eu esqueci minha carteira e...

    - Pai, quanto tempo se passou desde que você saiu?

    - Creio que uns 5 minutos, por quê?

    - Acho que estou ficando louca.

    Ele sorriu.

    - E não seria a loucura a coisa mais racional deste mundo?

-
NOTA

    Apesar desta história ter sido escrita em 2014, ainda tenho o mesmo pensamento de que vivemos em mundos paralelos e que existem muitos de nós mesmos. Por que não existiria? Por que seríamos egoístas ao ponto de acharmos que somos os únicos num universo infinito? 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

MORTE (Uma história de Alfa e Ômega)

    Visto uma camisa com as mangas cortadas que há muito foi um moletom. O capuz ainda está no mesmo lugar. A bermuda folgada, um pouco acima dos joelhos, também é do mesmo tecido. Sabe como é... Não é como se eu fosse receber alguém agora e precisasse me arrumar. Amarro meu cabelo num rabo de cavalo no alto da cabeça e resolvo dormir. Decido que estou muito cansada pra continuar refletindo sobre o dia. Me jogo na cama grande e deixo as katanas ao meu lado. As outras armas estão por perto, ao alcance. Por precaução, guardo uma adaga debaixo do travesseiro também. Não sei em quanto tempo caio no sono, mas acho que é bem rápido, porque logo meu corpo fica pesado. Pesado como nunca foi.

    Há algo estranho.

    Abro meus olhos. Não tenho certeza por quanto tempo dormi, mas sei que foi o suficiente pra alguém invadir o quarto de mansinho e me atacar. Como não escutei esse estranho encapuzado entrando? Ele usa uma longa capa preta e uma máscara que cobre a boca e o nariz. Percebo, através dos seus olhos, que está sorrindo de satisfação. Ele prende meus pulsos à cama com as mãos. Seu corpo é um grande peso sobre o meu.

    Notas mentais: 1) não confiar nas fechaduras desta casa, mesmo que eu tranque as portas à chave; 2) o cara é burro o bastante pra não notar as espadas que estão ao lado. Ele poderia ter me matado de forma rápida e quase indolor (sorte a minha); 3) pessoas desesperadas tendem a não planejar seus atos.

    Felizmente, é provável que ele não saiba que fui treinada pra que qualquer coisa ao meu alcance se torne fatal. Mas, no momento, o único utensílio acessível por aqui é o meu corpo. Por isso golpeio seu nariz com a cabeça, usando o máximo de força. Escuto a cartilagem estalar. Ele me liberta subitamente e leva as mãos ao rosto num reflexo. Estou livre. Soco seu abdômen, derrubando-o da cama. Ainda não estou disposta a usar as espadas. Gosto de brincar. Pulo da cama e fico em posição de ataque.

   - Quem te mandou? – pergunto, enquanto o observo se levantar com uma das mãos no rosto. Os olhos negros faíscam de fúria.

    - Você sabia que existe uma recompensa pela sua cabeça, Anjo? – a voz é grave, mas vacila por causa da dor.

    Dou de ombros sem estranhar a novidade. Ele avança e tenta me acertar com um dos punhos. Eu me esquivo e acerto mais uma vez seu abdômen, porém, desta vez, com um gancho. Sou pequena, mas sempre usei minha estatura ao meu favor. Basta saber como. Apesar de alto e forte, ele é lento. Muitos músculos são inúteis se você não sabe como utilizá-los. Ele recua uns dois passos – é o suficiente pra eu tomar impulso e dar uma cotovelada no alto de sua cabeça. Ele fica desnorteado e bate na espécie de abajur próximo à janela, espatifando-o. Provavelmente estamos acordando a mansão neste instante.

    Mesmo assim, ele não cai. Quando vou atacá-lo novamente, ele segura meu punho e com a outra mão fechada soca meu rosto uma, duas, três vezes até minha boca rachar e eu sentir o sabor característico de sangue na língua. Em seguida, aperta meu pescoço com ambas as mãos e me levanta. Estrelas rondam a minha cabeça e tento não apagar. É difícil respirar. Preciso agir – e rápido. Cravo minhas unhas nas luvas de couro que usa, mas é inútil. Num lapso de instinto, como o Krav Maga também me ensinou, enfio os polegares em seus olhos, afundando-os. Ele grita em agonia e me solta no chão. Estou de joelhos, recuperando o ar. O capuz do homem cai pra trás e revela uma cabeça careca. Ele ainda grita, debatendo-se contra os móveis.

    Levanto-me e caminho devagar até a cama. Pego minha adaga de bronze que estava guardada debaixo do travesseiro. Vou até onde ele está. Chuto um dos seus joelhos e o homem cai com as mãos espalmadas, olhando pro nada. Onde antes existiam dois globos oculares, agora apenas massas estranhas e ensanguentadas ocupam os lugares. Ele ainda geme alto. Afundo minha adaga no seu ombro e giro. Ele grita. Eu sorrio satisfeita.

    - Quem te mandou? – pergunto mais uma vez. – Me diga e eu poupo sua vidinha de merda. – claro, estou blefando.

    Ele dá uma risada entrecortada.

    - Nunca, sua putinha. A Águia vive!

    - Tudo bem, então. – suspiro, cansada, e toco o alto de sua cabeça. – Pela Ordem que me criou, espero que o inferno julgue os seus pecados. – dizendo isso, retiro a adaga do ombro ferido e cravo-a fundo em sua garganta. Puxo-a de volta.

    O homem leva a mão ao pescoço, mas rapidamente se afoga no próprio sangue que escorre em abundância pelo corte. Ele cai no chão do quarto de cara, com um baque. Poucos segundos depois, um grupo de guardas invade o cômodo (convenhamos, muito inútil agora). Eles ficam atônitos com a visão. Um Ômega vestido de calça de moletom e regata entra logo após. Nesta noite, usa um coque despenteado no alto da cabeça. Droga, como ainda consegue ser tão bonito?

    - O que diabos está acontecendo aqui?! – ele me olha e depois observa o corpo no chão. – O que...?

  - Parece que a mansão não é tão segura assim, afinal. – despreocupada, limpo a lâmina da adaga na barra da minha blusa.

    - Senhor? – chama um dos guardas que está ao lado do corpo.

   - O que houve? – Ômega passa por mim e vê o que o guarda vê. Ele me olha com uma expressão espantada.

   Me aproximo deles e olho o corpo. Sem máscara, o homem tem uma longa cicatriz da orelha esquerda à boca, quase repartindo o rosto na diagonal. A face me é familiar.

    - Você matou o Capitão... – Ômega ainda me olha incrédulo. – O Capitão da nossa guarda.

    Olho pra ele de volta com uma pergunta no pensamento: bem... eu deveria me preocupar com essa informação?

SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...