Se as pessoas soubessem que eu moro praticamente em outra civilização, não me chamariam para trabalhos tão distantes. O que me conforta é saber que o dinheiro vale todo o esforço, mesmo que, atualmente, eu viva a centenas de quilômetros daqui. Hoje em dia, meu bem, tudo pelo dinheiro.
Certo, concordemos, sempre foi
assim.
Há dois guardas na entrada do
casarão de cinco andares. O lugar parece antigo, quase arcaico, numa arquitetura
gótica de outros tempos. Talvez seja de uma época há muito passada, como uma
herança, mas, apesar disso, é bem conservado com suas paredes acinzentadas e
janelas vitorianas. Os guardas me deixam passar como se já soubessem quem eu
sou. Apenas assentem levemente – quase não dá pra perceber. As portas abrem e
dou de cara com um grande salão de mármore preto. É frio. Seguro um arrepio que
sobe pela espinha ao ser atingida por uma corrente de ar. A pessoa que mora
aqui deve ser rica pra caralho, provavelmente a dona da cidade (mas tem um
gosto duvidoso para decoração). Dentro, há guardas por toda parte: alguns com
metralhadoras, outros com lanças e até bestas. Se eu vacilar, posso morrer
rapidamente. Porém, ao que me parece, eles não pretendem me atacar, já que não
me olham, mas sei que estou sendo observada.
- Estávamos à sua espera,
querida. – uma mulher sentada num trono de prata me cumprimenta com um sorriso
simpático. Um trono? Fala sério. – Espero que tenha sido bem recepcionada.
Dou de ombros e enfio as mãos nos
bolsos do meu sobretudo militar, observando com o canto dos olhos o ambiente
que não é nada acolhedor. Além do trono de prata, não existem outros móveis.
- Eu não esperava alguém como
você. – ela me olha com interesse.
- O que esperava então? – levanto
uma sobrancelha e tiro meus óculos escuros, deixando que a armação penda nas
cordinhas de segurança.
- Alguém mais velha, talvez.
Quantos anos você tem, criança? – ela se inclina pra frente e descansa o queixo
sobre uma das mãos.
- Isso importa na conjuntura
social e política em que vivemos hoje, senhora? – ironizo.
- Não, definitivamente não. – ela
sorri mais uma vez e se recosta no trono, enquanto cruza as pernas. – Meu nome
é Idris. – diz a mulher. Ela provavelmente está na casa dos 50 anos, mas
esbanja jovialidade. Possui lábios carnudos, pele bronzeada e mandíbula
quadrada; usa um vestido verde musgo com uma fenda numa das coxas bem torneadas.
Uma trança dourada cai sobre seu ombro direito.
- Vejo que veio bem armada. –
percebo um cara de pé ao lado do trono de Idris. Alguém que eu não havia
prestado atenção. Estava tão parado feito os guardas que achei que fosse um. –
Espadachim, hum? – ele indica minhas duas katanas que estão guardadas em
bainhas nas minhas costas.
Ele é estranho. Não um estranho
daqueles esquisitos. Apenas estranho de uma forma peculiar. Veste terno
vermelho com uma camisa de gola rolê da mesma cor por dentro. Os sapatos
sociais pretos combinam com a cobra mamba
negra em torno do pescoço. Viva. O cabelo ondulado preto está jogado de
lado, destacando o mesmo queixo quadrado de Idris – provavelmente mãe e filho, deduzo.
Ele vem ao meu encontro e, de perto, noto que possui olhos amarelos. A cobra
sibila quando sente meu cheiro. Ele faz um carinho nela, acalmando-a. A cobra
se aquieta. Ele é alto, cerca de um e oitenta e cinco de altura. Ele usa uma argola dourada em
cada orelha. Parece um cigano, é bonito e, claro, preciso fazer uma nota
mental: perigoso barra tomar cuidado.
- O que vocês querem de mim? –
olho pra ele, depois Idris.
- Morte. – ele me observa de
cima, de uma maneira quase arrogante.
- Ora, não me diga. Vocês só não
podiam me contratar pra lavar os banheiros, certo?
Mas ninguém ri. O homem à minha
frente apenas me encara.
- Tudo bem. – levanto minhas
mãos. – Qual é o plano?
- Vamos entrar nos detalhes mais
tarde, senhorita. – ele puxa um tipo de pendrive do bolso da calça e aperta. De
repente um holograma de um senhor aparece ao nosso lado. – Afonso, acompanhe-a
até um dos aposentos, por favor. – a espécie de mordomo faz uma reverência. Ele
me entrega o pendrive que, na verdade, não passa apenas de um botão retangular.
– Chamarei-a quando estiver bem instalada. Aproveite a estadia, senhorita...? –
ele não sorri, mas parece mais simpático (daquele jeito dos ricos quando querem se equiparar à classe social inferior).
- Alfa. – eu respondo.
É quando ele sorri com o canto da
boca.
- Meu nome é Ômega.
Nenhum comentário:
Postar um comentário