quarta-feira, 26 de outubro de 2022

MAMBA NEGRA (Uma história de Alfa e Ômega)

           Se as pessoas soubessem que eu moro praticamente em outra civilização, não me chamariam para trabalhos tão distantes. O que me conforta é saber que o dinheiro vale todo o esforço, mesmo que, atualmente, eu viva a centenas de quilômetros daqui. Hoje em dia, meu bem, tudo pelo dinheiro.

Certo, concordemos, sempre foi assim.

Há dois guardas na entrada do casarão de cinco andares. O lugar parece antigo, quase arcaico, numa arquitetura gótica de outros tempos. Talvez seja de uma época há muito passada, como uma herança, mas, apesar disso, é bem conservado com suas paredes acinzentadas e janelas vitorianas. Os guardas me deixam passar como se já soubessem quem eu sou. Apenas assentem levemente – quase não dá pra perceber. As portas abrem e dou de cara com um grande salão de mármore preto. É frio. Seguro um arrepio que sobe pela espinha ao ser atingida por uma corrente de ar. A pessoa que mora aqui deve ser rica pra caralho, provavelmente a dona da cidade (mas tem um gosto duvidoso para decoração). Dentro, há guardas por toda parte: alguns com metralhadoras, outros com lanças e até bestas. Se eu vacilar, posso morrer rapidamente. Porém, ao que me parece, eles não pretendem me atacar, já que não me olham, mas sei que estou sendo observada.

- Estávamos à sua espera, querida. – uma mulher sentada num trono de prata me cumprimenta com um sorriso simpático. Um trono? Fala sério. – Espero que tenha sido bem recepcionada.

Dou de ombros e enfio as mãos nos bolsos do meu sobretudo militar, observando com o canto dos olhos o ambiente que não é nada acolhedor. Além do trono de prata, não existem outros móveis.

- Eu não esperava alguém como você. – ela me olha com interesse.

- O que esperava então? – levanto uma sobrancelha e tiro meus óculos escuros, deixando que a armação penda nas cordinhas de segurança.

- Alguém mais velha, talvez. Quantos anos você tem, criança? – ela se inclina pra frente e descansa o queixo sobre uma das mãos.

- Isso importa na conjuntura social e política em que vivemos hoje, senhora? – ironizo.

- Não, definitivamente não. – ela sorri mais uma vez e se recosta no trono, enquanto cruza as pernas. – Meu nome é Idris. – diz a mulher. Ela provavelmente está na casa dos 50 anos, mas esbanja jovialidade. Possui lábios carnudos, pele bronzeada e mandíbula quadrada; usa um vestido verde musgo com uma fenda numa das coxas bem torneadas. Uma trança dourada cai sobre seu ombro direito.

- Vejo que veio bem armada. – percebo um cara de pé ao lado do trono de Idris. Alguém que eu não havia prestado atenção. Estava tão parado feito os guardas que achei que fosse um. – Espadachim, hum? – ele indica minhas duas katanas que estão guardadas em bainhas nas minhas costas.

Ele é estranho. Não um estranho daqueles esquisitos. Apenas estranho de uma forma peculiar. Veste terno vermelho com uma camisa de gola rolê da mesma cor por dentro. Os sapatos sociais pretos combinam com a cobra mamba negra em torno do pescoço. Viva. O cabelo ondulado preto está jogado de lado, destacando o mesmo queixo quadrado de Idris – provavelmente mãe e filho, deduzo. Ele vem ao meu encontro e, de perto, noto que possui olhos amarelos. A cobra sibila quando sente meu cheiro. Ele faz um carinho nela, acalmando-a. A cobra se aquieta. Ele é alto, cerca de um e oitenta e cinco de altura. Ele usa uma argola dourada em cada orelha. Parece um cigano, é bonito e, claro, preciso fazer uma nota mental: perigoso barra tomar cuidado.

- O que vocês querem de mim? – olho pra ele, depois Idris.

- Morte. – ele me observa de cima, de uma maneira quase arrogante.

- Ora, não me diga. Vocês só não podiam me contratar pra lavar os banheiros, certo?

Mas ninguém ri. O homem à minha frente apenas me encara.

- Tudo bem. – levanto minhas mãos. – Qual é o plano?

- Vamos entrar nos detalhes mais tarde, senhorita. – ele puxa um tipo de pendrive do bolso da calça e aperta. De repente um holograma de um senhor aparece ao nosso lado. – Afonso, acompanhe-a até um dos aposentos, por favor. – a espécie de mordomo faz uma reverência. Ele me entrega o pendrive que, na verdade, não passa apenas de um botão retangular. – Chamarei-a quando estiver bem instalada. Aproveite a estadia, senhorita...? – ele não sorri, mas parece mais simpático (daquele jeito dos ricos quando querem se equiparar à classe social inferior).

- Alfa. – eu respondo.

É quando ele sorri com o canto da boca.

- Meu nome é Ômega.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...