Visto uma camisa com as mangas cortadas que há muito foi um moletom. O capuz ainda está no mesmo lugar. A bermuda folgada, um pouco acima dos joelhos, também é do mesmo tecido. Sabe como é... Não é como se eu fosse receber alguém agora e precisasse me arrumar. Amarro meu cabelo num rabo de cavalo no alto da cabeça e resolvo dormir. Decido que estou muito cansada pra continuar refletindo sobre o dia. Me jogo na cama grande e deixo as katanas ao meu lado. As outras armas estão por perto, ao alcance. Por precaução, guardo uma adaga debaixo do travesseiro também. Não sei em quanto tempo caio no sono, mas acho que é bem rápido, porque logo meu corpo fica pesado. Pesado como nunca foi.
Há algo
estranho.
Abro meus
olhos. Não tenho certeza por quanto tempo dormi, mas sei que foi o suficiente
pra alguém invadir o quarto de mansinho e me atacar. Como não escutei esse
estranho encapuzado entrando? Ele usa uma longa capa preta e uma máscara que
cobre a boca e o nariz. Percebo, através dos seus olhos, que está sorrindo de
satisfação. Ele prende meus pulsos à cama com as mãos. Seu corpo é um grande
peso sobre o meu.
Notas
mentais: 1) não confiar nas fechaduras desta casa, mesmo que eu tranque as
portas à chave; 2) o cara é burro o bastante pra não notar as espadas que estão
ao lado. Ele poderia ter me matado de forma rápida e quase indolor (sorte a
minha); 3) pessoas desesperadas tendem a não planejar seus atos.
Felizmente,
é provável que ele não saiba que fui treinada pra que qualquer coisa ao meu
alcance se torne fatal. Mas, no momento, o único utensílio acessível por aqui é
o meu corpo. Por isso golpeio seu nariz com a cabeça, usando o máximo de força.
Escuto a cartilagem estalar. Ele me liberta subitamente e leva as mãos ao rosto
num reflexo. Estou livre. Soco seu abdômen, derrubando-o da cama. Ainda não
estou disposta a usar as espadas. Gosto de brincar. Pulo da cama e fico em
posição de ataque.
- Quem te
mandou? – pergunto, enquanto o observo se levantar com uma das mãos no rosto.
Os olhos negros faíscam de fúria.
- Você
sabia que existe uma recompensa pela sua cabeça, Anjo? – a voz é grave, mas
vacila por causa da dor.
Dou de
ombros sem estranhar a novidade. Ele avança e tenta me acertar com um dos
punhos. Eu me esquivo e acerto mais uma vez seu abdômen, porém, desta vez, com
um gancho. Sou pequena, mas sempre usei minha estatura ao meu favor. Basta
saber como. Apesar de alto e forte, ele é lento. Muitos músculos são inúteis se
você não sabe como utilizá-los. Ele recua uns dois passos – é o suficiente pra
eu tomar impulso e dar uma cotovelada no alto de sua cabeça. Ele fica
desnorteado e bate na espécie de abajur próximo à janela, espatifando-o.
Provavelmente estamos acordando a mansão neste instante.
Mesmo
assim, ele não cai. Quando vou atacá-lo novamente, ele segura meu punho e com a
outra mão fechada soca meu rosto uma, duas, três vezes até minha boca rachar e
eu sentir o sabor característico de sangue na língua. Em seguida, aperta meu
pescoço com ambas as mãos e me levanta. Estrelas rondam a minha cabeça e tento
não apagar. É difícil respirar. Preciso agir – e rápido. Cravo minhas unhas nas
luvas de couro que usa, mas é inútil. Num lapso de instinto, como o Krav
Maga também me ensinou, enfio os polegares em seus olhos, afundando-os. Ele
grita em agonia e me solta no chão. Estou de joelhos, recuperando o ar. O capuz
do homem cai pra trás e revela uma cabeça careca. Ele ainda grita, debatendo-se
contra os móveis.
Levanto-me
e caminho devagar até a cama. Pego minha adaga de bronze que estava guardada
debaixo do travesseiro. Vou até onde ele está. Chuto um dos seus joelhos e o
homem cai com as mãos espalmadas, olhando pro nada. Onde antes existiam dois
globos oculares, agora apenas massas estranhas e ensanguentadas ocupam os
lugares. Ele ainda geme alto. Afundo minha adaga no seu ombro e giro. Ele
grita. Eu sorrio satisfeita.
- Quem te
mandou? – pergunto mais uma vez. – Me diga e eu poupo sua vidinha de merda. –
claro, estou blefando.
Ele dá
uma risada entrecortada.
- Nunca,
sua putinha. A Águia vive!
- Tudo
bem, então. – suspiro, cansada, e toco o alto de sua cabeça. – Pela Ordem que
me criou, espero que o inferno julgue os seus pecados. – dizendo isso, retiro a
adaga do ombro ferido e cravo-a fundo em sua garganta. Puxo-a de volta.
O homem
leva a mão ao pescoço, mas rapidamente se afoga no próprio sangue que escorre
em abundância pelo corte. Ele cai no chão do quarto de cara, com um baque.
Poucos segundos depois, um grupo de guardas invade o cômodo (convenhamos, muito
inútil agora). Eles ficam atônitos com a visão. Um Ômega vestido de calça de
moletom e regata entra logo após. Nesta noite, usa um coque despenteado no alto
da cabeça. Droga, como ainda consegue ser tão bonito?
- O que
diabos está acontecendo aqui?! – ele me olha e depois observa o corpo no chão.
– O que...?
- Parece
que a mansão não é tão segura assim, afinal. – despreocupada, limpo a lâmina da
adaga na barra da minha blusa.
- Senhor?
– chama um dos guardas que está ao lado do corpo.
- O que
houve? – Ômega passa por mim e vê o que o guarda vê. Ele me olha com uma expressão
espantada.
Me
aproximo deles e olho o corpo. Sem máscara, o homem tem uma longa cicatriz da
orelha esquerda à boca, quase repartindo o rosto na diagonal. A face me é
familiar.
- Você
matou o Capitão... – Ômega ainda me olha incrédulo. – O Capitão da nossa
guarda.
Olho pra ele de volta com uma pergunta no pensamento: bem... eu
deveria me preocupar com essa informação?
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