sexta-feira, 11 de novembro de 2022

MORTE (Uma história de Alfa e Ômega)

    Visto uma camisa com as mangas cortadas que há muito foi um moletom. O capuz ainda está no mesmo lugar. A bermuda folgada, um pouco acima dos joelhos, também é do mesmo tecido. Sabe como é... Não é como se eu fosse receber alguém agora e precisasse me arrumar. Amarro meu cabelo num rabo de cavalo no alto da cabeça e resolvo dormir. Decido que estou muito cansada pra continuar refletindo sobre o dia. Me jogo na cama grande e deixo as katanas ao meu lado. As outras armas estão por perto, ao alcance. Por precaução, guardo uma adaga debaixo do travesseiro também. Não sei em quanto tempo caio no sono, mas acho que é bem rápido, porque logo meu corpo fica pesado. Pesado como nunca foi.

    Há algo estranho.

    Abro meus olhos. Não tenho certeza por quanto tempo dormi, mas sei que foi o suficiente pra alguém invadir o quarto de mansinho e me atacar. Como não escutei esse estranho encapuzado entrando? Ele usa uma longa capa preta e uma máscara que cobre a boca e o nariz. Percebo, através dos seus olhos, que está sorrindo de satisfação. Ele prende meus pulsos à cama com as mãos. Seu corpo é um grande peso sobre o meu.

    Notas mentais: 1) não confiar nas fechaduras desta casa, mesmo que eu tranque as portas à chave; 2) o cara é burro o bastante pra não notar as espadas que estão ao lado. Ele poderia ter me matado de forma rápida e quase indolor (sorte a minha); 3) pessoas desesperadas tendem a não planejar seus atos.

    Felizmente, é provável que ele não saiba que fui treinada pra que qualquer coisa ao meu alcance se torne fatal. Mas, no momento, o único utensílio acessível por aqui é o meu corpo. Por isso golpeio seu nariz com a cabeça, usando o máximo de força. Escuto a cartilagem estalar. Ele me liberta subitamente e leva as mãos ao rosto num reflexo. Estou livre. Soco seu abdômen, derrubando-o da cama. Ainda não estou disposta a usar as espadas. Gosto de brincar. Pulo da cama e fico em posição de ataque.

   - Quem te mandou? – pergunto, enquanto o observo se levantar com uma das mãos no rosto. Os olhos negros faíscam de fúria.

    - Você sabia que existe uma recompensa pela sua cabeça, Anjo? – a voz é grave, mas vacila por causa da dor.

    Dou de ombros sem estranhar a novidade. Ele avança e tenta me acertar com um dos punhos. Eu me esquivo e acerto mais uma vez seu abdômen, porém, desta vez, com um gancho. Sou pequena, mas sempre usei minha estatura ao meu favor. Basta saber como. Apesar de alto e forte, ele é lento. Muitos músculos são inúteis se você não sabe como utilizá-los. Ele recua uns dois passos – é o suficiente pra eu tomar impulso e dar uma cotovelada no alto de sua cabeça. Ele fica desnorteado e bate na espécie de abajur próximo à janela, espatifando-o. Provavelmente estamos acordando a mansão neste instante.

    Mesmo assim, ele não cai. Quando vou atacá-lo novamente, ele segura meu punho e com a outra mão fechada soca meu rosto uma, duas, três vezes até minha boca rachar e eu sentir o sabor característico de sangue na língua. Em seguida, aperta meu pescoço com ambas as mãos e me levanta. Estrelas rondam a minha cabeça e tento não apagar. É difícil respirar. Preciso agir – e rápido. Cravo minhas unhas nas luvas de couro que usa, mas é inútil. Num lapso de instinto, como o Krav Maga também me ensinou, enfio os polegares em seus olhos, afundando-os. Ele grita em agonia e me solta no chão. Estou de joelhos, recuperando o ar. O capuz do homem cai pra trás e revela uma cabeça careca. Ele ainda grita, debatendo-se contra os móveis.

    Levanto-me e caminho devagar até a cama. Pego minha adaga de bronze que estava guardada debaixo do travesseiro. Vou até onde ele está. Chuto um dos seus joelhos e o homem cai com as mãos espalmadas, olhando pro nada. Onde antes existiam dois globos oculares, agora apenas massas estranhas e ensanguentadas ocupam os lugares. Ele ainda geme alto. Afundo minha adaga no seu ombro e giro. Ele grita. Eu sorrio satisfeita.

    - Quem te mandou? – pergunto mais uma vez. – Me diga e eu poupo sua vidinha de merda. – claro, estou blefando.

    Ele dá uma risada entrecortada.

    - Nunca, sua putinha. A Águia vive!

    - Tudo bem, então. – suspiro, cansada, e toco o alto de sua cabeça. – Pela Ordem que me criou, espero que o inferno julgue os seus pecados. – dizendo isso, retiro a adaga do ombro ferido e cravo-a fundo em sua garganta. Puxo-a de volta.

    O homem leva a mão ao pescoço, mas rapidamente se afoga no próprio sangue que escorre em abundância pelo corte. Ele cai no chão do quarto de cara, com um baque. Poucos segundos depois, um grupo de guardas invade o cômodo (convenhamos, muito inútil agora). Eles ficam atônitos com a visão. Um Ômega vestido de calça de moletom e regata entra logo após. Nesta noite, usa um coque despenteado no alto da cabeça. Droga, como ainda consegue ser tão bonito?

    - O que diabos está acontecendo aqui?! – ele me olha e depois observa o corpo no chão. – O que...?

  - Parece que a mansão não é tão segura assim, afinal. – despreocupada, limpo a lâmina da adaga na barra da minha blusa.

    - Senhor? – chama um dos guardas que está ao lado do corpo.

   - O que houve? – Ômega passa por mim e vê o que o guarda vê. Ele me olha com uma expressão espantada.

   Me aproximo deles e olho o corpo. Sem máscara, o homem tem uma longa cicatriz da orelha esquerda à boca, quase repartindo o rosto na diagonal. A face me é familiar.

    - Você matou o Capitão... – Ômega ainda me olha incrédulo. – O Capitão da nossa guarda.

    Olho pra ele de volta com uma pergunta no pensamento: bem... eu deveria me preocupar com essa informação?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SETE EXÉRCITOS

             - Preciso de um cigarro. – suspirei de forma cansada e doentia (como um fumante dependente do tabagismo, claro), tateando os bo...